Leondenis Vendramim

A imprensa e a nossa língua 12

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Leondenis Vendramim é professor de Filosofia, Ética e História (Foto: Arquivo pessoal)

Entre outros termos bíblicos curiosos vamos analisar a seguir: “alma” e “espírito”. Estes vocábulos são de origem latina. “Anima – ae” cujo significado é sopro, ar, vento. De anima temos animado (ser que tem ânimo, alento; são os vivos; “animalis-e” (animal) é aquele que respira, “animans”, ou, “animosus – a”, (vivaz, que anima).

Desanimado é quem tem falta de ar. Alma nada mais é do que um ser que respira, tem ar. Gênesis 2:7 diz “Deus fez o homem do barro e soprou (ar) nas suas narinas e o homem tornou-se alma vivente”. Adão tornou-se alma viva, não diz que ele possui uma alma, mas que ele é.

Os animais também são almas vivas como os homens (Gn. 7:15). Salomão confirma dizendo “os homens não têm vantagem sobre os animais porque todos têm o mesmo fôlego; assim como o homem morre, os animais também morrem e todos vão para o mesmo lugar, para o pó; e o fôlego volta a Deus, isto é, mistura-se com os gases da natureza (Ecl. 3:19-20).

Ao nascer, a criança precisa de uma palmada para puxar o fôlego, iniciar a respiração tornando-se uma alma vivente, se não conseguir aspirar o ar morre. O desanimado morre! A fala e a expressão dos sentimentos e emoções, como o remorso, a capacidade de pensar e fazer projetos são alguns caracteres que nos diferenciam dos animais.

A neurociência revela que o cérebro humano recebe informações dos órgãos do sentido, e pela energia, via nervos, chegam aos neurônios e sinapses indo até o cerebelo. Em resposta, este emite as ordens aos vários órgãos fônicos, então falamos, às pernas e andamos ou corremos, aos braços e gesticulamos… Só uma alma viva (um ser que respira) e que tem os órgãos correspondentes pode executar essas e outras funções.

O morto perdeu o ar, sua massa encefálica acaba, seus nervos são comidos pelos vermes, não tem mais músculos para cumprir as ordens do cérebro. Como alguém morto pode falar, amar, ter ódio ou inveja, fazer bem ou mal, ou, comunicar-se com os vivos? O sábio Salomão esclarece: “Os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, não têm recompensa alguma, nem memória, nem amor, ódio ou inveja e não participa de coisa alguma dos vivos (Ecl. 9:5-6). Não fazem projetos, obras, pois não possuem sabedoria alguma, nem conhecimento (Ecl. 9:10).

Espírito do latim “spiritus – us” traduzida por fôlego, respiração, sopro, ar. Tito Lívio usou essa palavra com o sentido de ira e Cícero com o sentido de alma. Alma e espírito são sinônimos.

Na língua hebraica, do V.T., a palavra para espírito é “ruach) usada 377 vezes das quais 232 vezes como espírito com a ideia de sangue (Gn. 4:10), ar (Jó 9:18) ou hálito (Jó 19:17) vida (Gn. 6:17; 7:22). Se “ruach” é vida, ar, hálito e sangue, então não pode ser imaterial. Nenhuma vez o termo é usado com o sentido de algo que possa existir independente, ou, fora do corpo, nem ainda pós morte.

O vocábulo hebraico “nephesh” cuja tradução é alma também tem o significado de vida em 119 vezes, outras vezes como sangue, ser vivente, pessoa, consciência, poder, mas nunca como entidade que sobreviva ao corpo, ou fora dele.

No N.T. os apóstolos, Dr. Lucas e Marcos usaram a palavra “pneuma” que é vento, ar, brisa, a raiz é “pneo” que significa sopro. Usamos este mesmo vocábulo pneus para designar os objetos que se enche de ar para sustentar o carro. Quando Jesus ressuscitou a filha de Jairo, diz a Escritura: o ar (pneuma) voltou à menina e logo ela se levantou (Luc 8:55).

Nada há na palavra “pneuma” que possa identificá-la como uma entidade consciente, com capacidade de se relacionar, nem o N.T. tem tal conceito a não ser quando usa do sinédoque (figura de linguagem (Mt. 5:5), ou em parábolas (Lc 16:19-31).

Outra palavra grega usada no N.T. é psychê, 40 vezes traduzida como vida, outras vezes como pronome pessoal, emoções, apetite natural, mente, coração, alma, em Ap. 8:9 psychê é traduzida como criaturas e em Gn. 8:1 por animais vivos, mas nada nesse vocábulo implica em uma entidade capaz de sobreviver após morte e ou fora do corpo.

Teólogos e eruditos de várias religiões abandonaram a ideia do dualismo platônico – a sobrevivência da alma ou espírito ao corpo. O ser humano é holístico, isto é, não se pode separar o físico, mental e emocional.

Bons dicionários, comentários bíblicos e linguistas podem ajudar sobre pontos obscuros.

ARTIGO escrito por Leondenis Vendramim, professor de Filosofia, Ética e História. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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