Rubinho de Souza

A inesquecível dona Nena

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Foto enviada pelo colunista

O nome Helena Quaglia Tavares de Campos (na foto com seu marido Benedito, e sua irmã Angelina no centro), talvez seja de difícil lembrança para o pessoal mais antigo de Rafard, mas se falar “dona Nena” da padaria, aí quase todos que a conheceram, hão de se lembrar daquela senhora que carinhosamente e sem fazer distinção a todos atendia atrás do balcão, e que a todos, indistintamente tratava por “broto”.

Quão doce é para mim, pessoalmente pronunciar o seu apelido Dona Nena, pois quando eu era um moleque a conheci, e se queres ser lembrado como alguém bom, trata bem hoje a todos, mas sobretudo as crianças!

Sem receio de cometer um engano, posso afirmar, que muitos homens e mulheres, que conheceram dona Nena, ao sentar com seus netos, numa reunião familiar, ainda mais nesses tempos que estamos presos pela pandemia, e ao folhear O Semanário, deveria ler este artigo em voz alta, e contar o que foi essa mulher, como forma de fazer uma homenagem à quem, na minha concepção era uma santa mulher.

Estas poucas linhas são insuficientes para descrever quem foi dona Nena, mas nas poucas palavras, posso contar uma parte do que ela foi e fez pelas pessoas que a cercavam…

Para que possas ter pequena noção da mulher de fibra, dada ao trabalho diário que toda padaria requer, ela não media esforços, ao levantar ainda muito cedo, tinha obesidade que lhe provocava muitas dores, notadamente nas pernas, visto que, era obrigada a ficar longo período em pé e tinha varizes, mas nem isso, apagava aquele sorriso sincero em seu rosto.

Todo os sábados, quando eu descia a rua Maurice Allain em direção à Praça da Bandeira, com minha caixa de engraxar sapatos, ao passar em frente a Panificadora, sempre ouvia uma voz doce, a chamar-me: – Broto! Venha aqui um pouquinho…eu entrava na padaria, e dizia: – Pronto dona Nena! E lá estava ela, com o braço esticado para o lado de cá do balcão, com a um saquinho de balas, ou um doce na mão, dizendo baixinho: – Tome, é para você!

Mulher de sentimentos nobres, visto que nesse tempo, meu pai trabalhava para Ditão padeiro, e pelos comentários, sabia que o marido é quem controlava tudo com rigidez, mas Dona Nena, sabendo das dificuldades de muitas famílias, ajudava quem podia, doando pães, e muitas vezes alimentos e roupas.

Havia umas famílias que moravam abaixo da linha do trem, e cujas crianças, passavam dificuldades, e ela instruiu os pais a mandarem as crianças toda manhã para pelo menos ter o pão quentinho para um bom café da manhã, e lá iam elas todos os dias e vos asseguro que muitas e muitas vezes, presenciei essas crianças, saírem da padaria, felizes, correndo pelas ruas, com vários sacos de pães, que dona Nena, tinha dado a elas e aos seus pais.

Certa vez, conversando com seu filho Luís Carlos, ele me contou, que quando dona Nena faleceu, a família foi informada pelo administrador do cemitério que no jazigo da família havia sido enterrado um senhor muito pobre, que não possuía familiares, e não havia deixado bens para compra de um mero terreno para ser sepultado, e que dona Nena ao ficar sabendo do caso, autorizou que o mesmo fosse sepultado no terreno que a família possuía. Segundo me foi contado depois, ela teve que ir até o cemitério onde foi pedido que assinasse uma autorização, e ainda pagou todas as despesas do sepultamento do pobre homem.

O filho dela na época que me contou, me disse que isso só foi descoberto pela família, depois que ela faleceu e tiveram que informar que tinha uma pessoa estranha à família sepultada no jazigo da Família Tavares de Campos.

Há uma citação bíblica que diz assim: “- Aquele que der um copo de água, a um dos meus pequeninos, não perderá seu galardão nos céus”.

Com a frase acima, me despeço, conclamando a que possamos refletir sobre nossa vida, e a maneira de vivermos, num momento em que muitos estão desesperados pelo desemprego, pela falta de um pão na mesa dos filhos.logo do fundo do baú raffard

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