Rubinho de Souza

A “Rua Abolição” da minha infância

Quando meus pais vieram de Porto Feliz, onde se casaram e por muitos anos residiram, foram morar no bairro Paulino Galvão, depois passaram a residir numa casa, onde eu nasci – que foi demolida, onde é hoje o estacionamento da Feira do Brás – na Rua Abolição (foto), lugar onde morei até a idade de 7 anos.

A casa onde nasci, é a mesma que foi residência de Paulo Bordó e sua família, e ficava ao lado da casa de Aninha e Osvaldo, pais de Maelmo sapateiro, e aos fundos, moravam Seo Inacinho e Dona Gabriela, e na frente ficava a casa de Dona Irene e Rino Pellegrine, quando as ruas de Vila Rafard ainda eram sem calçamento, na terra pura.
A partir dos 7 anos, mesmo morando no Padovani, fui matriculado no Grupo Escolar Professor Luís Grellet, onde meus irmãos mais velhos também estudaram, quando no tempo deles ainda era Grupo Escolar de Raffard.

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Foto enviada pelo escritor

Essa foto do ano de 1967, me faz recordar de que nessa época, eu com 9 anos, era comum passar por aí de bicicleta, quando minha mãe Dona Benedita, me chamava da porta da cozinha que dava para o enorme quintal onde morávamos, e me chamando dizia para eu ir buscar algumas coisas para ela. Primeiro eu deveria passar nos irmãos Darros, para comprar fubá moído na hora, e depois levar um litro na sacolinha para passar na venda do Leandrin, e pegar 1 litro de óleo, e por último passar no “Brai Foêro” e deixar um canecão para colocar cabo.

A mãe falou, era uma ordem, entrego o regador para minha irmã Elidamares regar os muitos canteiros de verduras que meu pai cultivava no nosso quintal, pego minha magrela no rancho que temos para proteger o poço de d’água que abastece a casa, onde a água era tirada com balde, para uso tanto para limpeza, serviços domésticos, para regar os canteiros e também beber, pois era de excelente qualidade.

Ao sair com minha bicicleta, meu pai, que trabalhava de barbeiro na sala da frente de nossa casa que foi improvisada para funcionar como seu Salão de barbeiro, pergunta onde é que eu vou, pois ninguém poderia nesse tempo saia à toa para a rua, sem dar satisfações aos pais, ao que respondo que ia buscar fubá e óleo para mamãe fazer polenta. Ele diz… Ah! então tá bom!

Mesmo sendo ainda muito cedo, vejo que meu pai já atendeu vários clientes, pois o chão da sala está forrado de cabelos de tudo quando é tipo e cor. Ele ainda está animado, mas quando chega a noite, percebo o cansaço é visível em seu semblante, por ficar em pé praticamente o dia todo.

Outros meninos da minha idade, meus colegas, também vão para suas mães, comprar o necessário para fazer o almoço, pois alguns deles tem o pai que trabalha na usina e o almoço tem horário para ficar pronto, pois ao soar o apito das 11 horas, saem rapidamente, uns à pé, outros de bicicleta, para chegar em casa, poder almoçar e voltar ao trabalho, enquanto quem mora mais longe leva a própria marmita, pois o horário é curto e o batente é pesado.

Ao entrar no “Benefício de milho e arroz” dos Irmãos Darros, tenho que falar alto para me fazer ouvir, tamanho é o barulho que fazem as máquinas, e depois de colocar o saquinho de fubá na minha sacolinha, despeço-me e vou em direção ao Armazém do Leandrin, e quando chego, lá vem ele, sempre sorridente e brincalhão, e como ainda conseguiu guardar meu nome, talvez por eu ser ainda um moleque, numa referência ao apelido do meu pai, pergunta: – O que vai levar hoje Carminho? E depois de cumprimentá-lo, falo que vou levar um litro de óleo, e ao entregar o vasilhame que trago na minha sacolinha, fico intrigado observando como ele faz para encher o litro de óleo, somente girando uma manivela naquele tamborzão.

Saindo da Venda do Leandrin, vou até a oficina do Brai foêro, e deixo o canecão que minha mãe recomendou para colocar cabo, onde ele me atende soltando baforadas de seu inseparável cachimbo, cujo cheiro da fumaça se mistura com o cheiro característico de elementos e restos de solda de sua oficina cheia de muita fuligem pelo intenso trabalho que ele desenvolve com capricho e maestria, e volto para casa para que minha mãe possa fazer no fogão de lenha, a polenta mais deliciosa do mundo, como só ela sabe fazer…

Eram assim os dias da minha feliz infância que ficaram gravadas na minha mente, e que ao ver a foto, me levou de volta numa gostosa viagem no tempo, na qual, você caro leitor também viajou em minha companhia.

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