J.R. Guedes de OliveiraOpinião

Ainda Tarsila do Amaral – 130 anos

26/08/2016

Ainda Tarsila do Amaral – 130 anos

José Roberto Guedes de Oliveira é escritor e historiador, de Capivari (Foto: Arquivo/O Semanário)
José Roberto Guedes de Oliveira é escritor e historiador, de Capivari (Foto: Arquivo/O Semanário)

ARTIGO | Entre as grandes obras da Tarsila do Amaral, em sua trajetória profícua de produção, está a “A Negra”, óleo sobre tela, ano de 1923. Esta pintura se encontra no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – USP e tem a seguinte explicação sobre o tema: “Nesta grande tela, de composição geometrizada ao máximo, mas sem detrimento das figuras, com planos bem definidos e linhas simplificadas; a artista põe a mostra o que aprendera em seu ‘serviço militar do cubismo’ nos ateliês de Lhote, Gleizes e Léger, artistas que haviam se afastado do austero e cerebral cubismo de Picasso e Braque. Traço constante de sua obra, a presença da busca de uma cor verdadeiramente brasileira ou caipira: rosa e azul claros, ou o verde e amarelo do nosso colorido tropical, a cor é um dos elementos mais valorizados em sua composição”.
A própria pintora, em depoimento, fez a seguinte explicação sobre o seu trabalho: “Um dos meus quadros que fez muito sucesso, quando eu o expus na Europa se chama “A Negra”. Porque eu tenho reminiscências de ter conhecido uma daquelas antigas escravas, quando eu era menina de cinco ou seis anos, na nossa fazenda, e ela tinha os lábios caídos e os seios enormes. Contaram-me depois que naquele tempo as negras amarravam pedras nos seios para ficarem compridos, e elas jogarem para trás e amamentarem a criança presa nas costas. Num quadro que pintei para o IV Centenário de São Paulo, eu fiz uma procissão com uma negra em último plano e uma igreja barroca, era uma lembrança daquela negra da minha infância, eu acho. Eu invento tudo na minha pintura. E o que eu vi ou senti, como um belo pôr do sol ou essa negra, eu estilizo”.
Sabendo do meu interesse sobre a Tarsila do Amaral e pesquisa de sua biografia, um especialista de São Paulo (não recordo o nome, infelizmente), me procurou para uma indagação que o atormentava de longa data: teria a pintora feito duas telas de “A Negra”?
No primeiro momento, achei um verdadeiro absurdo, já que não havia parâmetros para assim avaliar. Ao que o referido especialista me apresentou a sua hipótese: na pintura de 1923 – esta que se encontra no MAC-USP – a figura da negra está com a perna direita em cima da perna esquerda. Se notarmos uma outra pintura (que ainda desconhecemos onde se encontra e se realmente existe), a negra está com a perna esquerda em cima da direita. Fato curioso e digno de uma melhor apreciação.
Perguntava-me, a referida pessoa, se eu conhecia este pormenor e se teria alguma coisa a declarar. Pensei, pesquisei e, passado alguns dias, fiz-lhe contato, com uma outra hipótese mais assustadora ainda:
A pintura “A Negra” foi feita quando a Tarsila do Amaral estava em Paris. Entre meio 1923 a 1926, quando do seu retorno de uma visita a então União Soviética, juntamente com Oswald de Andrade, é presa por subversão. Parece que, segundo relatos, ficou detida por cerca de um mês.
Com efeito, não teria feito ela uma pintura também denominada “A Negra”, mas com a perna esquerda em cima da direita, significando, na época, o seu ingresso no Partido Comunista Brasileiro – PCB? A “esquerda” sobre a “direita” em sentido político?
Foi, assim, que passei para o especialista que me procurou. Não há certeza sobre isso. Caberia uma melhor pesquisa e uma melhor verificação se de fato existe essa nova pintura de “A Negra”, tal qual a de 1923.

Fotomontagem: O Semanário
Fotomontagem: O Semanário

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