Opinião

Brevidade da vida e finitude do homem

“Tudo há de se passar no invisível túnel do tempo; a vida, uma estranha hospedaria, onde passamos às tontas e nossas frágeis malas quase nunca estão prontas.” DBP

A meditar na epígrafe acima, nestes tempos de implacável pandemia mundial, imprescindível se torna um “brake” para uma reflexão, uma catarse, uma pausa para o plano de salvação de nossas almas, necessitadas de íntimas revisões, perdões e autocríticas (onde errei? quem ofendi? a quem humilhei? a quem prejudiquei?). Em vida, passamos por tantos desafios, lições e aprendizados, provas, exames, infindos embates, ganhando, perdendo, caminhos e descaminhos, mas o que importa mesmo é o indagar para nós mesmos – independente de qualquer credo, crença ou religião: valeu a pena? qual foi o meu legado? em que contribui para o bem do próximo? deixarei boas lembranças? a eternidade: como e onde a passarei?

Estas perguntas muito incomodam uma sociedade misantrópica, capitalista, pedante e solipsista, sem tempo para nada; vive-se o hoje – o amanhã está muito distante. Só os outros morrem, e ainda, como preceituava Sartre – o inferno é sempre os outros.

O vestibular para o Céu não depende de diplomas universitários, títulos de mestrados ou doutorados, dinheiro e saldos bancários, carrões, cadastros imobiliários, culturas, riquezas, ostentações e vaidades, e sim, de nossos passos límpidos e luminosos deixados ao perpassarmos a vida terrena! “Sic transit gloria mundi”. E ainda, parafraseando uma famosa locução latina do saber jurídico: “dormientibus non sucurrit Dei”.(Deus não socorre aos que dormem).

O homem, no sentido físico, está inconsolavelmente só, numa diminuta esfera perdida no espaço sideral, restrito a um sistema solar, numa das bilhões de galáxias existentes em nosso universo ou, quiçá poliuniverso (?).

Petulante e presunçoso, ele sonha, faz planos, cumpre metas, planeja viagens, agendas pessoais e empresariais. Hedonista e desdenhoso – desde os primórdios de sua divina criação -, não se preocupa com o seu futuro: “por que pensar nisto agora? quando chegar lá, eu resolverei; terei oportunidade de me arrepender… de perdoar… pedir perdão!…” Nem se dá conta que o tempo passa célere demais, e que de repente, nosso hoje é o amanhã que tanto esperamos ontem! A vida, o curto trecho entre o berço e o túmulo.

Estes terríveis agentes virais Sars-CoV-2 causadores da Covid-19, vieram para tirar-nos o sono, nossa vida e nossos sonhos; ela pode nos transportar, inopinadamente, para um sono eterno e sem sonhos, levando nossos amigos, parentes e entes queridos, derramando nossas lágrimas, deixando saudades e vazios impreenchíveis.

Quantos já se foram, sem um adeus, sem uma despedida?!

A saudade faz condoer inconsolavelmente a alma, a mente e os corações: “Por que choras ? / se o choro é o desalento/ da alma ressentida/ dos sonhos vãos,/ de batalhas vis/ nesta vida renhida./ Não . Não chores!/ Farto está o mar,/ o inverno se vai/ e após abnegada espera,/ abrem-se as flores,/ prenunciando a Primavera… (DBP)

“Eu vos fiz, Eu vos levarei, Eu vos trarei e Eu vos guardarei” (Isaías 46:4); deduz-se, certamente, que Deus nos guardará filtrados de nossos males e pecados; Ele não retém nenhuma espécie de entulhos ou detritos.
Nos tempos hodiernos, vivenciamos muitas previsões astrológicas, premonições, esoterismo, terapias de vidas passadas, cristais, pirâmides, dogmatismos inúteis, enfim, um conjunto de vazios para preencher o vazio da existência humana. Venera-se mais a criatura do que o Criador.

Falando um pouco do termo família – nada mais que um conjunto de pessoas, parentes ou não, que vivem sob o mesmo teto, na dependência e proteção de um esteio – do dono da casa; pessoas do mesmo sangue, pai, mãe e filhos. Usa-se família ainda para plantas: família das malváceas; para os animais: família dos felídeos, na gramática: infindas famílias das palavras.

Para Lia Luft “A boa família é aquela que até quando não nos compreende, quando desaprova alguma escolha nossa, mesmo assim nos faz sentir aceitos e respeitados. É onde sempre somos queridos e onde sempre temos lugares”.

Já La Bruyère, por sua vez, nos advertiu que: “o interior das famílias é frequentemente perturbado por desconfianças, ciúmes e antipatias, enquanto aparências de satisfação, calma e cordialidade nos enganam e nos fazem supor uma paz que não existe.

Há críticos mais cruéis ainda: “Há famílias que apenas se unem ao redor dos ataúdes”, afirmou Sofocleto.
Cecília Meireles confessou que sentia sua família dispersa, desunida: “Minha família anda longe, / Com trajo de circunstância: / uns converteram-se em flores, / outros em pedra, água, líquen; / alguns, de tanta distância, / nem tem vestígios que indiquem / uma certa orientação. / Minha família anda longe, / – na Terra, na Lua, em Marte – / Uns dançando pelos ares, / outros perdidos no chão”.

Disse o Papa Francisco: “família é lugar de perdão, que é vital para nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão, a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas; sem perdão a família adoece. O perdão é assepsia da alma, faxina da mente e alforria do coração. Quem não perdoa, não tem paz na alma, nem tampouco comunhão com Deus! A mágoa é um veneno que intoxica o coração, como se um germe autodestrutivo. Uma autofagia. Quem não perdoa adoece física, emocional e espiritualmente.”

Resignemo-nos – com a vigilância divina -, a continuar a bordo de nosso planeta Terra, viajando a 30 km/s em sua velocidade orbital, com seus imperceptíveis e monótonos movimentos de rotação e translação em sua trajetória elíptica e alongada, ao redor de nossa Estrela Mor (nosso Sol), que tanto nos alenta, ilumina e aquece todos os dias de nossas vidas!…

Neste inverno, deixe o sol invadir suas varandas e aposentos, aquecendo sua alma e seu coração; lá fora, as folhas secas soam seus hinos ao sabor dos ventos sem destino, sem direção, sem ao menos deixar seus rastros e seus sinais, alcançando longínquas plagas e infinitos mares, levando e trazendo notícias de que ama ou se desespera, enxugando lágrimas e seus clamores…

Nada mais contemplativo e jubiloso em apreciar o por do SOL, que pesadamente se esconde nas linhas do horizonte, erguendo-se noutra aurora majestoso e imponente, irradiando infinitas energias que derretem geleiras e formam rios glaciais, perscrutam as ramagens, aquecendo riachos, igarapés e os tenros ninhos das aves inocentes que ensaiam seus primeiros acordes e vôos matinais! Tudo tão simples, como simples a natureza que Deus no-la criou!

“C’est fini”: “Não conhecemos nem a nós mesmos, por que havemos, pois, de julgar o próximo? Ninguém sabe o que constitui um homem; só Deus conhece seus pensamentos, suas alegrias, suas amarguras, suas angústias, as injustiças cometidas por ele e contra ele. Todas as vidas, boas ou desnorteadas, penosas ou felizes, são apenas um prólogo do amor além da sepultura, onde tudo é compreendido e quase tudo é perdoado.” Sêneca

Quo vadis?…

 

Por Engº Dario Bicudo Piai – [email protected]

Jornal O Semanário

Esta notícia foi publicada por um dos redatores do jornal O Semanário, não significa que foi escrita por um deles, em alguns dos casos, foi apenas editada.

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