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Capivari e Rafard disponibilizam poucas vagas para pessoas com deficiência

16/05/2014

Capivari e Rafard disponibilizam poucas vagas para pessoas com deficiência

Número de contratações de empregados com deficiência nas duas cidades é inferior ao aumento registrado no estado
Dos currículos cadastrados no PAT de Capivari, apenas 30 são de pessoas com deficiência (Foto: Reprodução)
Dos currículos cadastrados no PAT de Capivari, apenas 30 são de pessoas com deficiência (Foto: Reprodução)

CAPIVARI E RAFARD – O número de pessoas com deficiência inseridas no mercado de trabalho cresceu 173% no estado de São Paulo nos primeiros três meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2013, o equivalente a 297 contratações, conforme dados divulgados pelo Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência (Padef), coordenado pela Secretaria de Estado do Emprego e Relações do Trabalho (Sert).

A quantidade de vagas oferecidas também apresentou aumento. Foram pelo menos dez mil oportunidades, o que representa 300% a mais se comparado com o ano anterior. No entanto, em Capivari e Rafard a situação é outra.

De acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) referentes ao ano de 2013, o Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT) de Capivari ofereceu, por meio do Padef, apenas 12 vagas para pessoas com deficiência. Dessas, cinco foram procuradas por essas pessoas, cujo PAT inscreveu nove e encaminhou 26 para entrevistas. Somente uma conseguiu emprego.

Em oposição, o secretário de Desenvolvimento Econômico de Capivari, Flavio Baggio, afirma que existe a procura tanto por parte das empresas, quanto pelo profissional. “Quando as pessoas com deficiência procuram o PAT, não medimos esforços para conquistar parcerias junto às empresas, na busca de uma oportunidade no mercado de trabalho”, garante.

“O mesmo acontece quando as empresas realizam a abertura de vagas para estes profissionais: acionamos os órgãos competentes e parceiros como o Ceamec [Centro de Apoio Multidisciplinar de Educação Especial de Capivari], a Diretoria de Inclusão Social e a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida”, completa Baggio. Para ele, a contratação de pessoas com deficiência deve ser vista como qualquer contratação.

“Todo ser humano possui limitações em graus diferenciados. No caso das pessoas com deficiência, elas são mais elevadas, mas não impedem o profissional de realizar determinadas funções.” Porém, adverte que sejam enquadradas dentro das possibilidades, “assim como ocorre em processos seletivos”.

O Sistema de Intermediação de Mão de Obra (Mais Emprego MTE), utilizado pelo PAT de Capivari, indica que dos currículos cadastrados atualmente, 30 são de pessoas que possuem algum tipo de deficiência. Ao mesmo tempo, quatro empresas disponibilizam vagas para elas no PAT.

Mas, segundo a Lei Federal nº 8.213, toda empresa com 100 empregados ou mais deve destinar de 2% a 5% de seu quadro a reabilitados ou pessoas com deficiência, e a dispensa de tal funcionário só pode ocorrer após a contratação de substituto em condição semelhante. Para Baggio, “o fato de proporcionar a essas pessoas uma colocação no mercado de trabalho muitas vezes está além de oferecer uma remuneração mensal, e sim a oportunidade de reabilitação social e psicológica”.

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), de Capivari, oferece orientação às famílias de pessoas com deficiência, a fim de conscientizar a respeito da importância e do que muda na vida do jovem quando inserido no mercado de trabalho. “A gente também oferece orientação para as empresas interessadas em contratar alguns de nossos jovens. Fazemos contato com elas, enviamos questionários. Mas nem todas respondem”, conta a diretora da Apae, Rute Siviero.

O projeto “Educação Profissional Básica e Colocação no Mercado de Trabalho” é responsável pelo envio de currículos cadastrados no banco de dados e orientação às empresas para as entrevistas. “A gente coloca no jornal, entra em contato. Até mandamos alguns jovens para entrevistas, mas acho que não é o perfil que a empresa precisa. Estamos com um pouco de dificuldade para incluir as pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho. Essa é a verdade”, admite.

Rute explica que a Apae cadastra inclusive currículos de pessoas que não estão na instituição, pois “é um direito deles trabalhar”. E isso inclui jovens de Rafard, Mombuca e Monte Mor. A dificuldade em inserir essas pessoas faz com que a diretora tema que a Lei de Cotas não seja cumprida na região. “Mas a gente apela até para os empresários que não precisam cumprir a lei, que deem uma oportunidade.”

“Temos um testemunho de uma empresa aqui de Capivari que não tem mais de 100 funcionários, no entanto, um ex-aprendiz nosso trabalha lá há anos. Ele é um exemplo lá dentro. O pessoal gosta muito e ele trabalha super bem”, comenta Rute.

A importância de uma vaga

O estado possui mais de nove milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, segundo a Padef. Dos quais, cinco milhões (48%) têm uma ocupação. Conforme dados do Censo Demográfico 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2,8 milhões de pessoas com deficiência possuem ensino superior completo (incluindo mestrado e doutorado). Em tese, o número é mais que suficiente para suprir as 937 mil vagas potencialmente criadas pela Lei de Cotas no país.

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), órgão do Poder Executivo federal, é responsável pela fiscalização das empresas, com o intuito de detectar o cumprimento da legislação ligada ao trabalho. Em caso de descumprimento da Lei de Cotas, pode haver multa e encaminhamento de relatório ao Ministério Público do Trabalho para as medidas legais cabíveis.

Rosângela Orlandin da Silva, 50, é mãe de Isabeli, 26. Há três anos as duas estão em busca de um emprego para a filha, portadora de síndrome de Down. A jovem, que estuda na Apae de manhã e à noite frequenta a escola Professor Luís Grellet, em Rafard, não quis mais estudar e perdeu o segundo semestre de 2013, depois de passar por uma entrevista numa empresa de Capivari e pensar que estava contratada.

“Ela já fez entrevistas em três empresas. Na última, mostraram até o setor de serviço. Sabe quando deixam a pessoa entusiasmada, pensando que você vai dar uma coisa e não dá? Na cabecinha dela, ela estava empregada. Falava para todos que ia trabalhar e que não precisaria mais ir à Apae, nem estudar à noite”, revela Rosângela.

Com isso, a mãe de Isabeli decidiu que não a levaria mais em nenhuma empresa. “Se for para deixar ela assim eu não vou”, enfatiza. “Eles pedem pessoa com deficiência, mas que seja deficiente auditivo. Daí é bem mais fácil, né? Eles não pegam pessoa com deficiência intelectual.” Isso porque antes de serem encaminhados às empresas, os candidatos com condições de trabalhar são pré-selecionados e entrevistados pela própria Apae.

O jornal O Semanário entrou em contato com as empresas Branyl, Capricho, CPIC Fiberglass, Lolly, Microsal, Unimed Capivari e Rigitec, entretanto, apenas uma se pronunciou sobre o assunto. A Rigitec, cujas unidades estão localizadas em Capivari e Cachoeirinha (RS), diz possuir deficientes em seu quadro de funcionários. No ano passado, a metalúrgica colocou anúncios nos jornais da região para “divulgar algumas vagas pendentes para deficientes”, e afirma ter preenchido a cota.

“Temos funcionários com várias deficiências e em diversos setores, entre eles qualidade e produção. No caso, duas moças com deficiência auditiva, as quais são excelentes funcionárias”, relata a analista de RH Silvana Benatti. Até o fechamento desta edição, O Semanário não havia sido autorizado pela Rigitec a entrevistar nenhum de seus funcionários.

Em paralelo, a redação entrou em contato com uma oitava empresa, a Saint-Gobain Brasilit, a fim de conversar com outra funcionária, mas também não foi autorizada, sob a justificativa de que o pedido foi avaliado internamente e optou-se por “não expor os colaboradores que possuem deficiência”.

Ainda de acordo com a RAIS, dos 3.296 rafardenses empregados, apenas um é portador de alguma deficiência com um salário de R$ 596 para trabalhar no ramo da Indústria de Transformação. Em Capivari, o número de pessoas assalariadas sobe para 15.046. Dos quais, 106 possuem algum tipo de deficiência. A média de salário é de R$ 1.530 e os setores variam.

Para Rosângela, quando as empresas conscientemente ou para cumprir a lei disponibilizam vagas para jovens como Isabeli, oferecem a oportunidade para que as pessoas com deficiência aprendam algo novo, saiam de casa. “O emprego é importante para o convívio, para que elas conheçam pessoas diferentes. Eu achava bom, sabe? Porque pelo menos você está incentivando o seu filho. Se deixarmos eles parados, não vão sair do lugar”, conclui a mãe.

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