Rubinho de Souza

Como vai morrendo a maior festa popular do Brasil

Hoje, excepcionalmente, transcrevo na íntegra, matéria do jornal “O Progresso” do grande jornalista José Miguel Bósio (na foto ao lado da esposa) , datada de 12 de março de 1944, ou seja, publicada há exatos 77 anos, em plena Segunda Guerra Mundial.

Quem ler atentamente a publicação abaixo, irá imaginar que foi escrita hoje, tão atual que é, pela abordagem que faz, falando inclusive da não realização do Carnaval em nome da ciência, pelos problemas enfrentado naqueles dias, tal como enfrentamos nos dias atuais. Vale a leitura:

“Quem assistiu o carnaval do Rio, há dez ou quinze anos, somente pode chegar a esta conclusão: ele vai aos poucos desaparecendo, até extinguir em definitivo.

Das festas populares era a que tinha mais força, mais vibração telúrica. Muito antes da folhinha assinalar a sua chegada triunfal, já o Rio era uma fogueira, crepitante de seiva e de vida. Tudo se movimentava, perdia o controle. Mulheres, crianças, velhos e moços, homens sisudos, caiam dentro do “frevo” e era temerário vê-los, porque nós também tínhamos a vontade dominada e terminávamos arrastados pelo poder de Momo.

Aos poucos, porém, o entusiasmo, principalmente o entusiasmo das ruas, foi arrefecendo, diminuindo de intensidade, perdendo as características próprias, morrendo. E hoje o Carnaval é apenas um arremedo do que era antigamente. Das ruas, ele passou para os salões, civilizando-se, aristocratizando-se, tomando ares pernósticos de grande senhor, num granfinismo irritante.

O que os estrangeiros buscavam aqui, nessa época do ano, era o Carnaval das ruas, porque ele tinha, na realidade, uma feição própria, peculiar à nossa gente. Em nenhum país do mundo se podia ver coisa parecida, uma multidão alucinada, vestindo as indumentárias mais absurdas, correndo, cantando, como se o mundo fosse se acabar depois daqueles três dias.

Os bailes de máscaras são usuais e comuns nos países da Europa. A originalidade nossa estava no Carnaval de Rua. Mas esse podemos dizer que está em agonia. Dois ou três anos ou mais e tê-lo-emos morto.
Este ano, então, não tivemos Carnaval. Nem interno nem externo. Os clubes não se abriram para os grandes bailes habituais e nas ruas o movimento foi diminuto.

O povo retraiu-se ainda mais do que se esperava, talvez numa compreensão muito nobre do grande drama que os povos vivem, nesta hora de luto para a civilização e para a cultura.

Quais são as causas do fenômeno? É que o mundo marcha para os seus momentos decisivos, para as suas grandes horas objetivas e não é mais possível perdermos tempo em curvaturas diabólicas e inúteis, quando a humanidade se atrita com os mais transcendentes problemas do século.

A tendência é para o desaparecimento. O próprio povo espontaneamente o vai proscrevendo, substituindo-o por divertimentos mais humanos e menos nocivos à própria saúde.

Eis a realidade, que a ciência subscreve”.logo do fundo do baú raffard

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