Rubinho de Souza

Denizart Fonseca (*26/11/1925 † 06/07/2020)

fundo-do-baú-denizart-fonseca
Foto enviada pelo colunista

“Nada antes, nem depois, nem por acaso” com essa frase, de sua autoria, com a qual deixava claro que o nosso destino é traçado pelo Autor do universo, passo a transcrever abaixo, um relato que o homenageado de hoje, publicou no Semanário há algum tempo.

A verdade é que Denizart deixa uma lacuna que não será preenchida, visto o conhecimento que tinha sobre assuntos variados, apaixonado por Raffard, visto que desde criança passou a morar aqui, quando era ainda uma Vila.

Tinha facilidade de lidar com as palavras, tanto falada quanto escrita, como se provará pelo seu texto abaixo:
“Aqui chegamos à pequenina Villa Raffard, vindos da vizinha Mombuca com os móveis transportados pela Estrada de Ferro Sorocabana, em 18 de julho de 1932, em plena Revolução Constitucionalista.

Nascido a 26 de novembro de 1925, em Mombuca, filho do Dr. Benedicto Affonso da Fonseca e Dona Anna Godoy Almeida Fonseca, com a idade de sete anos, fui matriculado no Grupo Escolar em um prédio posteriormente ocupado pelo RCA e hoje pela Drogaria São Luiz.

Como divisa da Usina, havia um enorme portão de metal, tendo na parte superior a inscrição em semicírculo: “Société des Sucreries brésiliennes”(foto). Em seguida havia casas geminadas e ocupadas por funcionários graduados, bem como uma Central telefônica.

Nosso pai, médico e farmacêutico, foi contratado pelo Sr. Humberto Pellegrini, encarregado do pessoal, para atendimento aos operários e familiares, instalou sua farmácia São Mathias, junto à Cooperativa de Secos e Molhados e Loja de tecidos, também para o fornecimento de gêneros alimentícios e tecidos, estabelecimentos privativos aos cooperados.

A enorme Usina era muito bem administrada por franceses e movimentada pela inteligência e mãos de centenas de operários, desde os cortadores de cana, maquinistas das composições que percorrendo os canaviais transportavam o produto já amarrado e unido em montes de feixes para serem anotados por fiscal o nome do operário. Havia também mecânicos, eletricistas, caldeireiros, pedreiros, pintores, soldadores, um muito bem aparelhado laboratório para análises químicas, dirigido pelo Sr. José Miguel Bósio (genial imigrante italiano, já comentado em outro “post”) até os funcionários encarregados da sua parte burocrática.

O enorme portão de metal separava o Engenho e as casas geminadas, ocupadas pelas famílias de seus funcionários: Ângelo Jóri, Dona Duíca e o filho João; Francisco (Paco) Cruz, D. Afonsa, e os filhos Mercedes e Ademar; no Centro telefônico a família Ricomini; mais duas que não recordamos os nomes e no final a Família Bedende.

Após um trecho vago, a loja com atendimento pela senhorita Antonieta de Biasi, a farmácia do “Seu” Fonseca e a venda da Cooperativa onde trabalhavam: Squilassi, Luiz Ortolani, Armando de Biasi e os auxiliares Joel, Ricardo e Donato para servirem no balcão e entrega de compras nas Fazendas, cujo caminhão era dirigido por Armando de Biasi.

Ao lado oposto dos imóveis, havia uma plantação de eucaliptos, onde ocorreu uma tragédia.

O Engenho possuía uma frota de várias máquinas a vapor que através de trilhos que cortavam todos os canaviais, transportavam a cana a ser transformada em açúcar e álcool. Os Srs. Sbrana e Minçon eram seus maquinistas.

No pequeno aglomerado de modestas casas residências no pequeno vilarejo, servindo os seus moradores além da Estação da Estrada de Ferro Sorocabana; pequeno posto policial com o Cabo Aníbal, os soldados Julia e depois o Pinheiro; a padaria do Sr. Aprilante, vendas de secos e molhados dos Srs. Floriano Fedrighi (com bomba de gasolina), Carlos Carnevalli (com açougue), José Gimenes (Bepe Sapo) e Paulino Pellegrini; havia ainda a Farmácia do Sr. Hermano Vaz; as lojas dos Srs. Chafic Maluf e Atta Macluf; as barbearias de Pedro Rocha, Bernardino Tireli e Américo Chiarini; o açougue do sr. José Siqueira, a lojinha da sra. Bego, a Agência dos Correios; a Ferraria e Carpintaria do Senhor Plácido Cortelazzi; o Grupo Escolar; dois Clubes sociais e esportivos Elite FC e União FC com jazz-band e bandas marciais; duas Bandas musicais, a fábrica de licores do Sr.Braggion e a Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, orientada pelo Padre. Arcádio Franchini.
Raffard (é o nome do seu fundador e que indevidamente, contrariando a lei, foi alterado para Rafard), naquela época era cortada por rua que também levou o nome de Maurice Allain, em homenagem a um dos gerentes franceses pioneiros, que aqui aportaram. Foi a primeira a ser coberta por paralelepípedos (grossos blocos retangulares de pedra, cortados para essa finalidade), permanecendo as demais em chão batido por muito tempo.

Havia um largo (hoje Praça da Bandeira), onde eram armados parques de diversões com círculo rotatório de cadeirinhas e cavalinhos de pau, movimentado por garotos, a troco de usufruírem gratuitamente das rodadas, barquinhas movimentadas pelos próprios usuários, tiro ao alvo, pescaria na areia em busca de prêmios, etc. etc., tudo pago com a moeda de então, os réis, sendo uma moeda de cem réis também conhecida como um tostão.

Ao lado direito do largo, havia uma bifurcação da estrada para a Fazenda São Bernardo para a Fazenda Santa Rita com a Rua Tietê onde, em ambos os lados, também em casas geminadas residiam famílias dos trabalhadores na Usina. Seguindo pela Rua Tietê, passávamos por uma encruzilhada com pequena construção que, tendo em cima uma cruz, ficou conhecida como “cruzeiro”, onde se acendiam velas e se reza pela alma de uma pessoa que ali havia sido assassinada.

Descendo a estrada, passando a ponte de madeira, muitas pessoas, (até famílias), aos domingos nas terras da Fazenda Santa Rita, às margens do Rio Capivari se distraiam, pescando nas “escadinhas” da represa, lambaris e manjubas e nas pedras, cascudos que, limpos, eram assados para o lanche acompanhado por refresco de capilé fabricado pelos irmãos Braggion.

Havia ali uma usina hidrelétrica que muitos anos depois foi carregada pelas caudalosas águas do rio (assim como a ponte), durante um temporal que afetou toda a região.

Na bifurcação, da Rua Tietê com a estrada São Bernardo (informados que fomos pelo amigo Nêne Chiarini), nos primórdios da Villa, em uma grande árvore ali existente funcionava um “açougue”, onde os bois suspensos pelos pés eram sacrificados, sendo a carne selecionada, pesada e vendida pelos magarefes.

Daquele ponto até a Fazenda São Bernardo, em ambos os lados da estrada, havia plantação de frondosas e bem cuidadas árvores por determinação do administrador Sr. José Mialhe.

Na estrada da Fazenda São Bernardo havia uma compacta plantação de bambus grossos e amarelos formando uma bela e agradável alameda, à esquerda da qual residia o administrador Dr. Piatiníski de nacionalidade russa. Na parte central havia além das residências, a pracinha com uma grande venda de secos e molhados e uma farmácia onde o Edson atendia aos doentes, uma capelinha, uma Sede onde aos sábados, um conjunto musical formado por Alcides no cavaquinho, Zito no violão e voz e no pandeiro o Moreno, animavam o baile das 20 às 22 horas.

No escritório trabalhavam além do chefe, Sr. Henrique Diez, os escriturários Armando de Biasi, Luiz Vicentin, Armando Loatti, Denizart Fonseca (estes dois, alterando-se até em sábados, domingos e feriados, atendiam a mesa telefônica), e Gijo Cereser, tendo como chefe geral o Sr. Mialhe.

O relato acima, escrito por Denizart, e a foto que tão bem ilustra sua descrição, quando ele faz referência ao portal da Usina, à Praça onde eram armados os parquinhos, os eucaliptos, e as casas geminadas que ele tão bem descreve, podemos afirmar que Raffard perde um grande historiador, dono de uma memória fantástica, como ele mesmo dizia: Nem antes, nem depois, nem por acaso”.logo do fundo do baú raffard

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo