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Diferentes histórias que marcam a luta dos Direitos da Pessoa com Deficiência

Sair de casa, andar na calçada, ouvir uma música, conversar com os amigos, ir ao restaurante, usar máscaras na pandemia, entre tantos outros gestos normais no dia a dia, são tranquilos para a maioria das pessoas, mas para a pessoa com deficiência, não é tão simples assim.

Lidar com o preconceito, a falta de oportunidades e serviços públicos que lhes garantam direitos básicos, são desafios de todos os dias para quem é pessoa com deficiência. É por isso que surgem datas como o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, comemorada em 21 de setembro, na próxima terça-feira.

E para reforçar a importância dessa causa, o jornal O Semanário conversou com duas mulheres, que contam suas histórias. Uma é pessoa com deficiência auditiva e outra, é mãe que se dedica integralmente aos cuidados da filha, quem tem paralisia cerebral. Elas mostram um pouco do retrato da deficiência, que por vezes passa desapercebido.

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Fabíola Rinaldi Forti Daroz é deficiente auditiva (Foto: Arquivo pessoal)

O jeito de comunicar de Fabíola

Redes sociais e aplicativos como o WhatsApp são ferramentas que ajudam na comunicação de Fabíola Rinaldi Forti Daroz.

Analista de sistemas aposentada, ela nasceu e mora até hoje em Capivari. Ela é deficiente auditiva, por conta de uma meningite contraída ainda quando bebê. Devido a uma infecção no intestino, Fabíola perdeu a audição, aos oito meses de vida.

As dificuldades começaram a aparecer bem cedo para Fabíola. Ela conta que quando chegou a idade de frequentar a escola, sua mãe enfrentou uma batalha para garantir que ela estudasse numa escola regular, assim como as outras crianças.

“Sofri preconceito, porque eles queriam me colocar junto com as outras crianças com deficiência. Naquela época, não tinha a professora auxiliar, tive que aprender de qualquer jeito, mas minha mãe me ajudava”, relata.

Porém, a deficiência não a impediu de seguir com os estudos, se casar e ser mãe. Casada há quase 24 anos, Fabíola tem dois filhos, um menino de 15 anos e uma menina de 11 anos.

“Eles [família] me entendem normalmente. São uma benção, me tratam como uma pessoa normal”, conta.

Fora de casa, Fabíola revela que sente na pele o preconceito. Por muitas vezes, ela mesma não se sente acolhida, pois as pessoas chegam a ignorar os deficientes auditivos.

Através de outras pessoas com deficiências auditivas que publicam suas experiências nas redes sociais, como a página do Facebook chamada “Surdos que Ouvem”, Fabíola tomou coragem e fez implantes auditivos, um em 2018 e outro em 2019.

Desde então, sua comunicação melhorou muito. Hoje em dia ela já pode ouvir e faz leitura labial, o que permite conversar com mais facilidade com outras pessoas. O que ela não tem é a memória auditiva, o que a impede, por exemplo, de ouvir o que as pessoas falam de costas.

“Não tenho memória auditiva como vocês, o que fala no rádio, por exemplo, não entendo nada, mas não tem problema, com o implante até minha voz mudou, isso já me deixa muito feliz”, comemora.

Fabíola é ativa nas redes sociais e sabe lutar por seus direitos. Uma das causas que ela defende são as legendas nos vídeos acessados pela internet. Um exemplo é a transmissão da missa da Igreja Matriz de São João Batista em Capivari, que antes, não possuía legendas. Agora, depois de movimentar as redes sociais, Fabíola já pode acompanhar a missa com legenda.

Ao falar sobre os direitos da Pessoa com Deficiência, ela defende a acessibilidade nos municípios, para garantir o direito de ir e vir, o respeito nas vagas de estacionamento reservadas às pessoas com deficiência e o uso, durante a pandemia, de máscaras transparentes, para que as pessoas com deficiência auditiva, como ela, tenham os mesmos direitos para se comunicar, usando a leitura labial.

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Maria e sua filha Paulina (Foto: Arquivo pessoal)

A história de Maria e Paulina

É até difícil de acreditar quando uma pessoa revela o nível de abdicação, até de coisas simples, como entrar em uma loja. Maria Ap. Ferreira, 44 anos, conta que depois que sua filha nasceu, ela conseguiu entrar em apenas duas lojas da rua XV de Novembro, no Centro de Capivari.

No entanto, sua revelação tem um objetivo maior. “Estas duas lojas, têm portas mais largas, que permitem que eu passe com a cadeira de rodas da minha filha”.

Maria é mãe da Paulina Ferreira Borges, de 21 anos. Paulina é pessoa com deficiência e cadeirante, por conta de uma contaminação viral durante a gestação. Ela nasceu com paralisia cerebral grave, não anda, não fala, não enxerga e ouve apenas de um ouvido. Além disso, sofre com convulsões e precisa usar fraldas.

Apesar dos desafios diários, que não são poucos, nunca faltaram amor e cumplicidade entre as duas. Antes da pandemia, era comum ver mãe e filha passando pelas ruas da cidade.

“Eu faço tudo a pé, levando a cadeira de rodas da Paulina. Nunca dá para entrar nas lojas da rua XV, por exemplo, porque não passa a cadeira dela. Um dia, para comprar uma sombrinha, pedi do lado de fora e o vendedor veio pegar o dinheiro na porta”, conta Maria, que também faz parte do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência de Capivari.

Indagada sobre o que gostaria que fosse diferente, ela desabafa: “Meu sonho era que pelo menos a cidade tivesse acessibilidade. Não dá para entrar no banco, no supermercado, restaurantes e até na igreja. Se eu entrar minha filha fica do lado de fora, então eu não entro”, diz com certa tristeza.

Maria reclama da falta de acessibilidade nas calçadas. A filha Paulina pesa 45 quilos, e somado a isso tem ainda o peso da cadeira de rodas. A falta de calçadas adaptadas só aumentam as dificuldades. “Eu já cai na rua perto do Correio e na avenida Pio XII”, relembra.

Segundo a mãe, outra ação que ajudaria muito, seria a entrega dos medicamentos, fraldas e dietas alimentares em casa. Ela tem que ir todo mês buscar esses acessórios. “É uma dificuldade a mais para as mães das crianças, jovens e adultos das pessoas com deficiência. Se fosse entregue nas nossas casas, seria tudo mais fácil para nós. Muitas mães não conseguem nem sair de casa com seus filhos”, revela.

Maria conta que também sofre com o olhar de preconceito das pessoas. “Não me sinto acolhida, muitos olham com preconceito. Isso é muito ruim, mas às vezes dou risada e a Paulina começa a rir também, do jeito dela, ela me entende”, conta a mãe, que segue no amor e luta pelos direitos da filha, que é mais uma, entre as milhares de pessoas com deficiência, em todo o país.

Ivanete Cardoso

Jornalista - MTB 57.303

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