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Espaço do leitor: Trocar carro por bicicleta transformou gasto e estresse em ganho e saúde

26/09/2014

Espaço do leitor: Trocar carro por bicicleta transformou gasto e estresse em ganho e saúde

André del Gaudio é jornalista e responsável pela divisão de sustentabilidade da Radar (Foto: Túlio Darros/O Semanário)
André del Gaudio é estudante de Ciências Sociais (Foto: Arquivo/Túlio Darros/O Semanário)

Por André del Gaudio

Diante do estábulo superlotado que é São Paulo, fiz um negócio da China: troquei 75 cavalos por um único pangaré magrelo com selim. Pode não parecer atraente falando assim, mas, pode apostar, fiquei no lucro. Antes, gastava muito para alimentar e manter a saúde da tropa, que sofria para puxar uma carroça grande e pesada, com um condutor que movia mais a boca que o tronco. Hoje, tenho só uma boca para alimentar e virei a força de uma dupla pura ação. O retorno é rápido, tonifica, modela e transforma meu corpo enquanto faço meus deslocamentos diários. Não sei como o canal de televendas não pensou nisto ainda!

Marketing à parte, meu ganho predileto desde que troquei o carrão pela bicicleta é mesmo no quesito mobilidade. Descobri que me livrar do peso dos 75 cavalos, que ocupavam muito espaço nas ruas, mas nas horas de pico não rendiam quase nada, me deixou bem mais versátil, amigável e silencioso. Ficou muito mais tranquilo e barato estacionar, e também me livrei do seguro. E pensar que tem gente que compra mais de 150 cavalos apenas para relinchar, mais do que qualquer outra coisa.

Todos os dias, ao encontrar cansados motoristas num dos meio de transporte mais democráticos que existe –o elevador do serviço– recebo, sem querer, explicações sobre o motivo pelo qual muitos ainda optam pelo carro. Logo pela manhã, recém-chegados das vias entupidas, olham para o capacete em minhas mãos e já lançam um comentário ou uma pergunta. Uns querem saber de onde venho, ao que prontamente retrucam com suas distâncias proibitivas. Outros quase pedem desculpas, dizendo que, sim, fazem exercício aos fins de semana.

Curioso mesmo é no fim do expediente quando estacionam o olhar cansado sobre o capacete, como se assistissem ali ao filme que logo irão encenar. Soltam até um pequeno suspiro, desesperançado. É de cortar o coração, acontece o tempo todo.

Acho que já deu para perceber que estou bem feliz com a escolha que fiz. Não me faltam motivos para isto: é mais saudável, barato, rápido, garantido, limpo, divertido, seguro e, porque não dizer, ético.

É como se tivesse aberto minha própria caixa de força e virado a chave gasto/estresse para ganho/saúde. Nunca fiz a conta do real gasto mensal do carro porque sempre tive medo da resposta. Só de pensar na manutenção, peças, combustível, lavagem, multas, dentre outros, já ficava arrepiado. Agora meu gasto foi reduzido à míseros R$ 23,50 por mês.

O trajeto matinal Vila Madalena – Vila Olímpia, antes imprevisível, é agora cravado em 30 minutos, faça chuva ou sol. No lusco-fusco, vou da Vila Olímpia para o Butantã em 25 relaxantes minutos. No fim da noite, do Butantã de volta para Vila Madalena, em 15. Com isto eu garanto 1h10m de atividade física.

Ops, esqueci de um detalhe: não tem rodízio!

Por mais que a tentação de voltar para as quatro rodas me ronde constantemente e as propagandas me falem o tempo todo do tremendo sucesso que eu serei quando adquirir o mais novo modelo, ainda prefiro ser o sucesso do elevador.

Nada é desmedidamente bom, eu sei. Não prego a troca imediata do carro pelo pedal, porque ainda existe um grande exército de trabalhadores que precisa trazer seus corpos enlatados de longe para a labuta, sem muita alternativa ao transporte coletivo ou ao carro. Quem se arriscaria na Regis Bittencourt de bicicleta em direção ao centro? Confio mesmo é no leitor que mora relativamente próximo ao trabalho e que pode parar para pensar nos argumentos apresentados. Afinal, queremos uma cidade, não um estábulo!

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