Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo

Eu não fiz nada…

Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo é especialista em dependência química pela USP/SP-GREA
Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo é especialista em dependência química pela USP/SP-GREA

A Editora EME acabou de publicar uma nova tradução do livro de origem francesa, O Céu e o Inferno, onde espíritos de santos e filósofos relatam suas experiências pós-morte de felicidade e bem-estar, sem estarem em um lugar definido, mas em suas consciências. A obra traz também depoimentos dos desgraçados no Além.

Um deles evocado, que se identificou como “um boêmio”, é altamente instrutivo em sua fala. Depois de confessar os abusos praticados e lastimar a própria sorte, esse espírito passou conselhos aos homens, para que não se deixassem escravizar pelas paixões deste mundo.

Sua confissão foi seguida pelas instruções de um sábio, guia da médium: “A influência da matéria os acompanha no além-túmulo, sem que a morte ponha fim aos apetites que seus olhos, tão limitados quanto na Terra, buscam em vão satisfazer. (…) É necessário, então, que vivam nessa tortura moral, até que, vencidos pelo cansaço, decidem erguer os olhos para Deus”.

Pela lei de sintonia, os afins se atraem e se comprazem nos gostos. E os bebedores inveterados normalmente são acompanhados no vício por espíritos que também se entretêm naquela preferência. Álcool também é droga.
Um dos fatos mais corriqueiros dos que bebem é não se lembrar no outro dia do que fizeram e se desculpar por ter perdido o controle e bebido demais.

São os chamados apagões de memória (ou, no termo médico, “blackout alcoólico”): refere-se à perda temporária de memória que é causada pelo consumo excessivo de bebida. Esta amnésia alcoólica é causada por um dano que o álcool faz no sistema nervoso central, que leva ao esquecimento do que aconteceu durante o tempo da bebedeira.
Fomos resgatar um jovem reincidente no álcool e outras drogas e que além de vender seus bens como celular, notebook e impressora, ainda invadia o dormitório materno, desmontando a veneziana e retirando os pertences da mãe.

Como já tinha sido internado anteriormente e não concluído o tratamento, demitido do último serviço e, após apelação da mãe à delegada de polícia e ao promotor, que alegaram nada poder fazer, tomou a atitude de internar involuntariamente o filho.

O rapaz não queria ser internado novamente, e alegava que não tinha feito nada daquilo de que era acusado (e era vezeiro – contumaz – nessa subtração de objetos e valores familiares). E realmente o jovem não mentia, pois sob os efeitos das drogas que tinha usado a noite toda, não conseguia se lembrar do que tinha feito. E desferia agressões verbais ao seu familiar, chamando-o de louco.

Cada um de nós elege os tipos de experiências que, nessa vida, escolhe trilhar. A harmonia ou discórdia, o estudo ou o vício (dependência de álcool ou outras drogas), procurar um emprego ou se apropriar dos bens do próximo e, às vezes, da própria família, buscar o caminho da corrigenda ou dos enganos.

Somos todos livres nas ações, e depois dos frutos vêm as colheitas, quando no bem a consciência em paz, o paraíso dentro da alma, quando no mau caminho ocorrem as cobranças e as corrigendas, os débitos vencem e resgates chegam, na lei de causa e efeito, onde enfrentamos nossa redenção.

Devemos respeitar o livre-arbítrio das pessoas, suas vontades e vocações.

No caso das pessoas que desenvolvem a doença da dependência química, elas perdem a razão e a capacidade de escolha, e a família, pensando na saúde, no bem e na recuperação, devem propor um tratamento involuntário.
E no caso daqueles que estão marginalizados, na rua, a promotoria, em acordo com a secretaria da saúde e o juiz, pode fazer a internação compulsória, porque o adicto por si só não consegue se ajudar e vai morrer na dor.

ARTIGO escrito por Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo é especialista em dependência química pela USP/SP-GREA. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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