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Fantasmagorias Capivarianas: A Sereia do Rio

As crianças saíram do museu quase na hora de fechar. Todas em fila, quase que em marcha. Nenhum sussurro. Logo atrás delas, vinha a professora ereta e magra como viga de madeira seca.

O tempo passou rápido enquanto eu lia, e já de noite, com a chuva pendendo do céu, eu corria para fechar as janela e me molhar menos no caminho de volta a minha casa. Antes que eu fechasse todas as janelas, ouvi os estralos de granizos crepitarem no telhado.

Fechei todo o museu e sentei na escada.

Foi quando ouvi um barulho de metal caindo, vindo de baixo de mim. Olhei embaixo da escada e reparei pela primeira vez que lá havia um alçapão de madeira.

Puxei, empurrei e nada, estava totalmente emperrado.

Sem ter mais o que fazer, tomei novamente o manuscrito em minhas mãos e li mais um conto.

sereia-do-rio-fantasmagorias-capivarianasdA Sereia do Rio

Era tão bela e serena quanto as flores na primavera, com um rosto que parecia esculpido em mármore branco por mãos de anjo, que só se tornava levemente rubro pouco antes de começar a cantar no coral da praça. Olhá-la, mesmo que de longe, era um deleite para todos de Capivari, que se aglomeravam aos montes perto do coreto, os homens mais perto que as mulheres… Mesmo aqueles de mãos dadas e aliança no dedo, se reparassem estavam sempre a um passo a frente ou ao menos uma esticadela de pescoço a frente de suas mulheres. Ninguém se escoiceava, pois a voz faria de bestas, carneiros a quem a ouvisse, mesmo quando não era acompanhada pelo coro ou pela orquestra municipal que sempre ficava ao fundo. Como se o tempo parasse às seis da tarde, horário em que a banda tocava junto com Luciana, as pessoas se calavam, os pássaros se calavam e até mesmo o vento parecia parar de soprar.

Danilo, ainda muito jovem, acompanhava tudo com olhos de águia da sacada de sua casa, cada movimento mínimo. Aquele era o melhor momento de seu dia e por ele esperava sempre ansiosamente. Em dias de chuva, quando o coral não ensaiava, ele ficava olhando pela janela e imaginando Luciana, cada gesto seu e ouvindo em sua mente o som doce de sua voz.

Seu fascínio foi aumentando, assim como sua curiosidade, pela misteriosa mulher de cabelos encaracolados. Onde vivia, em que trabalhava, a que horas dormia?

Aquele ano foi um ano conturbado em muitas família, as brigas entre os casais eram constantes, o que fazia com que cada vez mais se tornasse religiosa a ida à praça ver o coreto e ouvir suas música. Era um momento de calmaria em meio à tempestade, dizia o padre em sua imensa sabedoria.

Um dia, Danilo viu Luciana enquanto olhava pela janela do quarto para a rua vazia, tomou coragem e resolveu segui-la. O que faria ela saindo cantando, tarde da noite em direção à santa casa, e que roupas estranhas e esvoaçantes eram aquelas? Saiu pela janela, para que ninguém o ouvisse, foi seguindo devagar e ao longe, entrando pelo pasto atrás da santa casa até ao bosque dos pinheiros! Com quem se encontraria? Por que no bosque?

Enquanto a seguia, as perguntas o guiaram para dentro do bosque, mas nem mesmo Danilo, com sua criatividade fértil, poderia imaginar o que encontraria. Ela passou pelo pasto e pelas árvores adentrou em uma clareira perto do rio. Lá, estranhamente, havia vários homens iluminados por pequenas tochas e uma fogueira central…

Puxando um fio, fez cair de seus ombros toda roupa que vestia, se despiu por completo numa cena entorpecente.

E Luciana foi cantando cada vez mais alto e passando por todos os homens. O som ficou tão alto que tornou-se parte do lugar, da grama ,das árvores, do ar… Chegou a tal intensidade que desumanizava a cantora, colocando-a em um estado Divino. A música aos poucos foi sendo acompanhada pela natureza; tanto pelos uivos do vento entre as árvores, quanto pelas batidas dos trovões no céu.

A noite era densa e o fogo que iluminava a clareira, brigava com o vento, rodopiando de mil formas, fazendo as sombras dos homens estáticos vultos dançantes embalados pela música e a dança da musa nua.

E quando a chuva começou a cair molhando a todos, os homens começaram a se mexer… Lentos e mecânicos como marionetes, seguindo Luciana para dentro do rio. Danilo então saiu de seu esconderijo entre as árvores e sem saber o que fazia foi em direção à mulher. Antes que a chuva apagasse por completo a fogueira, Danilo pôde ver todos submergirem por completo dentro do rio que há poucos metros dali, não os cobriria o umbigo.
Somente a música ainda permanecia viva no bosque molhado.

Danilo ficou espantado, não podia acreditar nos seus olhos, mas seus ouvidos não o deixavam se enganar.

Aquela era a voz de Luciana! Isso ele sabia mesmo enquanto se afastava do bosque tentando entender o que acontecera.

Por Gabriel Góes, professor de Desenho, Teatro e Poéticas Visuais
Gabriel Góes, professor de Desenho, Teatro e Poéticas Visuais
Gabriel Góes, professor de Desenho, Teatro e Poéticas Visuais

Jornal O Semanário

Esta notícia foi publicada por um dos redatores do jornal O Semanário, não significa que foi escrita por um deles, em alguns dos casos, foi apenas editada.

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