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Motoboy capivariano com memória invejável é considerado ‘gênio dos números’

O código de barras de um boleto bancário possui 48 dígitos, separados em cinco campos. Para pagar um boleto, sem usar um aplicativo de celular, por exemplo, é preciso anotar os números ou levá-lo impresso para não ter erro. No entanto, isso não é necessário para o motoboy Valdir Ap. Costa, de 54 anos.

Valdir memoriza números, e conta já ter pago 3 boletos sem qualquer tipo de ajuda ou anotação, apenas memorizando os códigos de barras.

“O rapaz do caixa perguntou: tem certeza de que sabe o código de barra, não é melhor buscar os boletos? Eu disse que não, era só eu falar e ele digitar, eu já sabia todos os números na sequência dos três boletos”, lembra.

Este é apenas um dos episódios de memorização de números e sequências em que Valdir é especialista.

Há 25 anos ele trabalha como motoboy, realizando o serviço de entrega de medicamentos para farmácias de Capivari. Valdir conta que há cerca de 10 anos, começou a prestar mais atenção no seu dom com os números, mas, desde criança, ainda na escola, sempre foi aquele aluno que se destacava nas aulas de Matemática.

“Comecei a treinar com os números de celular, hoje, eu sei mais de 100 números de telefone de clientes da farmácia”, revela.

O motoboy, que só estudou até o segundo ano do ensino médio, disse que isso não o impede de aprimorar sua capacidade de memorização. Atualmente, ele começou a estudar Matemática Avançada, pela Internet.

“Fico muito feliz com essa minha facilidade com os números. Isso me ajuda no trabalho e as pessoas, às vezes, não acreditam que consigo memorizar tudo isso. Agora estou estudando Matemática Avançada para me aprimorar”, conta.

Além da facilidade com os códigos de barra e números de celular, Valdir tem memorizado mais de 1.100 nomes de ruas de Capivari, com a escala dos números de onde começa e termina cada rua. Isso o ajuda na hora de encontrar o caminho mais curto para chegar com a entrega dos medicamentos.

E não para por aí, há cerca de quatro anos, Valdir decorou uma sequência de 60 palavras para testar o seu dom. Ele garante que até os dias de hoje é capaz de repetir todas elas, e na sequência.

Outras sequências numéricas fáceis para o motoboy, são números de documentos, placas de carro, números de Renavan, entre tantos outros números e dados que ele segue memorizando dia a dia.

O ‘gênio dos números’ é casado e tem uma filha jovem, que segundo ele, não é fã de Matemática como o pai.

“Em casa só eu que gosto dos números e da Matemática, minha esposa e minha filha não são apaixonadas como eu, mas tudo bem, elas sempre me apoiam”, conta.

Para preservar a memória e continuar a decorar os números com tanta facilidade, Valdir tem uma receita simples.

“Não fumo, não bebo, durmo cedo e muito treino”.

Dom?

Mas, o que determina a habilidade de memorizar números, imagens ou palavras? A facilidade ou a dificuldade para desenvolver diferentes áreas do conhecimento é algo inato, considerado um ‘dom’, ou sofre influência de fatores externos, como escolaridade e aspectos culturais?

Segundo o neurologista, Luis Sidônio Teixeira Silva, ambos os fatores são importantes, tanto os genéticos quanto os ambientais.

O que seriam os fatores ambientais? Simplesmente tudo: escolaridade (aqui incluso o número de anos de educação formal, o nível e competência desta educação), os interesses pessoais e profissionais, as atividades de lazer e o convívio social e familiar.

No tocante a habilidades específicas da memória, em boa parte, isto pode ser treinado. Por exemplo, um bancário geralmente se sai bem na memória para números, um linguista para palavras, um cineasta para imagens.

Há também indivíduos que aprendem a fazer associações muito rápidas com o que ouvem ou leem, e dão verdadeiros shows em palestras ou ministram cursos ensinando os outros a memorizar, utilizando estas mesmas técnicas.

Agora, se isto ocasiona um ganho expressivo na vida intelectual ou nas atividades diárias é discutível.
Embora muito mais raro, segundo o neurologista, há pessoas com capacidades extraordinárias para aprender idiomas, memorizar trechos de livros ou poemas, recordar detalhes de eventos ocorridos anos antes. A explicação para estas habilidades ainda é uma verdadeira incógnita para a ciência.

“Mas, muito provavelmente, o segredo estaria nas sinapses neuronais, isto é, nos contatos que as células cerebrais fazem umas com as outras, já que não há diferença no peso ou no formato do cérebro destes indivíduos”, explica Luís Sidônio.

O profissional reforça que a melhor maneira de preservar a memória é exercitando-a. E, com este objetivo, toda a atividade intelectual é bem-vinda: ler, escrever, dialogar, pensar, ouvir.

“O envelhecimento vai nos trazer uma maior chance de desenvolvermos as chamadas demências, que são as doenças que ocasionam a perda da memória. Mas é fato bem conhecido que nas pessoas com maior nível de atividade intelectual as demências evoluem de modo mais lento”, finaliza.

Ivanete Cardoso

Jornalista - MTB 57.303

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