J.R. Guedes de Oliveira

O mestre Augusto Castanho

No dia 14 passado, lembramos dos 110 anos de falecimento do professor Augusto César de Arruda Castanho (1849-1910) – o Mestre Augusto Castanho.

Falecido aos 61 anos de idade, deixou uma enorme folha-corrida de trabalhos e ação em prol da educação no Brasil, o que podemos situá-lo, sem a menor sombra de dúvidas, ao lado de figuras como Anísio Teixeira (1900-1971), Darcy Ribeiro (1922-1997) e Paulo Freire (1921-1997).

Educador emérito, conferencista dos mais célebres, deixou uma obra importantíssima, com o título de “Conferências Pedagógicas”, na qual, entre outras, ele trata da questão dos concursos públicos para ingresso no magistério. Isto foi num tempo em que não havia tais concursos e a admissão se dava, muitas vezes, por meios políticos e influências.

Em honra ao patrono da hoje “Escola Municipal Augusto Castanho”, reproduzimos, aqui, os dados biográficos do insigne professor, composto, há alguns decênios, pela então Diretoria da mencionada escola que se denominava EEPG “Augusto Castanho”, oriunda do “Grupo Escolar Augusto Castanho”, na célebre construção da rua XV de Novembro, com a rua Barão do Rio Branco.

“Nasceu em Capivari, no dia 7 de agosto de 1849. Filho de Manoel de Arruda Castanho e de Ana Jacinta de Cerqueira Leite.

Theodora Martins do Amaral Bonilha e Augusto César de Arruda Castanho
Theodora Martins do Amaral Bonilha e Augusto César de Arruda Castanho

Desempenhando as modestíssimas funções de negociante, e depois escrivão do juízo de paz, mas sempre insatisfeito, queria mudar de profissão, buscando progredir. Casado e já com quatro filhos pequenos e sem recursos, Augusto Castanho lembrou-se de ser professor, manifestando sua ideia à esposa e aos amigos mais íntimos. Todos acharam nobre o desejo, mas impossível a sua realização, por falta de recursos. Fez uma lista de amigos, que, com um auxílio mensal, garantiriam a sua permanência e da família em São Paulo, e depois da formatura e nomeação reembolsá-los-ia toda importância, ficando a dívida de gratidão, que não se pagaria jamais. Poucos dias depois, partir Augusto Castanho, levando sua família com a pequena contribuição mensal.

Enfrentou muitas dificuldades, pobreza, doença, contrariedades, vencendo-as todas, graças a enérgica dedicação da esposa, e sua força de vontade. Logo depois os amigos faltaram com o compromisso, e com a falta de contribuição, a mulher só viu uma solução: compraram a prestação restos de uma pensão e receberiam pensionistas, para a manutenção da casa.

Augusto Castanho começou a frequentar, como convite, o 2º. Ano normal, dependendo a sua aprovação, nesse ano, não só de um exame vago das matérias do ano anterior, que ia tentar, como do de suficiência, necessário à regularização de sua matrícula. Esse exame, o primeiro requerido na Escola Normal de São Paulo, abreviaria o curso. Ao voltar dos exames, encontrou a mulher sem os seus brincos de brilhantes, única joia que possuía, lembrança de um noivado feliz, que o senhorio exigira, como pagamento, por aluguéis atrasados.
Anos depois terminava os estudos, diplomando-se como Professor Normalista, no dia 27 de dezembro de 1883, em São Paulo.

Ingressou no magistério público, em Piracicaba, e, colocado, cumpria pagar os amigos. Professor público e particular, foi sempre lutador. Para o professor, pedia garantias; para a escola, novos métodos; para os alunos, mais carinho e mais amor. Lutar foi sua divisa e lutando sempre afirmava: “Não há progresso sem luta, nem luta sem conquista, nem conquista sem proveito”.

Abolicionista, no tempo da escravidão, republicano militante, durante a monarquia, pela abolição e pela república, deu, no alar, na escola, na tribuna 3e na imprensa, todo o poder de sua palavra doutrinária, sincera e convincente, arriscando, por elas, a própria vida.

Era republicano, mas sem ódio, disse o próprio Imperador em visita à sua escola; não visava homens e sim princípios. Com sua franqueza, recebeu por ofício, suspensão do cargo de professor, por seis meses. Reconsiderando mais tarde o ato, o Governo mandou pagar integralmente o funcionário, que, embora suspenso, não interrompeu o exercício.

Veio a Abolição e a república, mas ele continuou mestre-escola, e na luta prosseguiu. Livre pensador embora, respeitava todas as religiões porque pensava: “A virtude não é monopólio de crença. Romana ou protestante, piedosa ou ímpia, a sugestão não dirime a culta de não deslustre o mérito”.

Seu lar, onde podia dominar, como soberano, preferiu dirigi-lo como um bom, adorava os filhos, conquistava amigos em todas os credos e de todas as condições sociais. Como falava com facilidade, os juízes começaram a nomeá-lo defensor “ad-hoc” dos criminosos sem patrono, se conseguia livrá-los, satisfazia a consciência e ganhava as meias custas. Assim ingressou na advocacia, em que se fez considerado e defendeu dezenas de réus, de graça, sem jamais acusar algum, mesmo que por muito dinheiro. Repugnava-lhe o mister de acusador.

Como escrevia bem, com arte, fez-se jornalista e militou, grandemente, na imprensa doutrinando sempre. Teve por lema: “Nunca dizer aquilo de que não pudesse assumir inteira responsabilidade, subscrevendo o seu nome, e nunca afirmar qualquer coisa que não visasse um bem”.

Foi inspetor escolar e depois, membro do Conselho Superior da Instrução Pública, por eleição da classe. Sem trair seus deveres, constituiu-se, em ambos, defensor dos colegas. Essa dedicação custou-lhe a perda do posto pela extinção do Conselho, por sua causa dissolvido. Cumpria o Governo indicar-lhe um cargo equivalente, não o fez. Passado algum tempo, Augusto Castanho reclamou uma classe vaga no Grupo Escolar “Barão do Rio Branco”, em Piracicaba, não lhe deram. Para custear a vida, montou um hotel. Acionou o Estado e venceu. Foi-lhe indicado em 1898, uma escola, em Capivari, para a continuação do exercício e recebeu o quantum do tempo que passou. De hoteleiro, voltou a ser professor.

Como professor, jornalista, advogado, inspetor escolar, membro do Conselho Superior, abolicionista, republicano, tribuno, protetor de todos os infelizes, tendo o seu nome ligado a todos os empreendimentos utilitários do seu tempo, conseguia muitas dedicações, transformando-se, sem querer e sem saber como, num prestigioso chefe político, capaz de por em risco uma disputada eleição. Vítima de tantas injustiças, tornou-se um revoltado, e os revoltosos não obedecem ao mando dos poderosos, foi então perseguido.

Vitimado por síncope cardíaca, faleceu a 14 de novembro de 1910 (há, portanto, 110 anos. A terra que o deu à vida, recebeu-lhe o corpo, pobre como ao nascer, mas honrado sempre, em vala comum, como era seu desejo”.
Em 1935, depois de 25 anos, a escola de ensino fundamental passa a se chamar “Grupo Escolar Augusto Castanho”, em sua homenagem.

Lembramos, aqui, que em 1999, ano de comemoração do 150º. aniversário de seu nascimento, participamos das festividades, realizando palestras na referida escola, bem como prestando-lhe as devidas homenagens no seu jazigo perpétuo, no Cemitério São João Batista, em Capivari. Dentro da “Semana do Patrono”, o próprio Movimento Capivari Solidário, na época, fez a reforma do seu túmulo, preservando-o com todo respeito e reconhecimento.

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Escritor J.R. Guedes de Oliveira (Foto: Divulgação)

ARTIGO escrito por J. R. Guedes de Oliveira, ensaísta, biógrafo e historiador. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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