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‘Pior que a deficiência física, é o isolamento social’, relata confeiteira rafardense

Ela encontrou na música, a força para superar os desafios. Faltam acessibilidade e acolhimento em Rafard

Na cozinha preparando bolos para vender e, com o dinheiro, pagar seu tratamento dentário. É assim que a rafardense Cláudia Ap. de Campos, 46 anos, portadora de deficiência, passou o Dia Internacional do Deficiente Físico, comemorado na quinta-feira (3).

O Dia Internacional do Deficiente Físico foi instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas), que aponta a acessibilidade e a inclusão na vida social, como os principais desafios vividos pelos portadores de deficiência.
Histórias como a de Cláudia comprovam a afirmação da ONU. Indagada sobre o que falta para que o deficiente físico tenha mais qualidade de vida na cidade onde mora, Cláudia afirma que, em Rafard, faltam projetos e ações de acessibilidade e inclusão social do deficiente.

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No Dia da Pessoa com Deficiência, Cláudia conta sua história de vida, desafios e superação (Foto: Arquivo pessoal)

“Em Rafard há outros deficientes físicos. Estamos escondidos dentro de casa. Não há nenhum tipo de lazer para os deficientes e falta acessibilidade. O isolamento social é muito pior do que a nossa limitação física”, lamenta a moradora.

Cláudia afirma que faltam projetos para inserção dos deficientes na sociedade e faltam grupos de convivência entre os portadores de deficiência. “E também faltam profissionais capacitados que nos tratem com respeito, e não como coitados e incapazes. Também queremos fazer parte da comunidade”, afirma.

História de vida

Cláudia nasceu com uma má formação congênita no fêmur esquerdo, e por conta disso, sua perna esquerda é 21 centímetros menor que a direita, o que lhe atribui limitações para andar.

Quando tinha apenas 8 anos, Cláudia perdeu a mãe. Para não ir para um abrigo de menores, ela e a irmã foram morar com a tia, com quem vivem até hoje, no bairro da Bomba, em Rafard.

“Eu passei por muitas provações. As piadinhas na escola, o preconceito, a falta de oportunidade no mercado de trabalho e já caí do ônibus várias vezes”, conta. Ela relata que a muitos anos não utiliza mais os ônibus circulares, em Rafard, por ter sofrido vários episódios de quedas por falta de acessibilidade.

Entre muitos relatos de preconceito e dificuldades, a rafardense conta que passou por anos de depressão, superou um câncer no útero e teve que fazer cirurgia bariátrica.

Ela recorda que, por muito tempo, circulou pela cidade cortando caminho e evitando pessoas, assim se sentia protegida dos comentários e julgamentos.

A virada

Quem vê Cláudia, hoje, preparando e vendendo bolos não imagina sua história de superação. Há cerca de 7 anos, ela deu um salto para a virada. Usando a internet, Cláudia começou a gravar vídeos contando sua história.
O tempo passou e hoje ela tem centenas de seguidores em suas redes sociais, e além dos vídeos, também faz palestras de motivação, é cantora evangélica e faz pregações com convites para várias cidades e até outros estados.

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No Dia da Pessoa com Deficiência, Cláudia conta sua história de vida, desafios e superação (Foto: Arquivo pessoal)

“O que me levantou foi a fé em Deus, a música, o contato com as pessoas através das redes sociais e a minha vontade de vencer e provar que sou capaz”, conta Cláudia, que não desanima, mesmo com o diagnóstico de apenas 8% de seus ossos saudáveis.

Seu novo projeto é fazer os bolos para a hora do café. Os amigos ajudam doando os ingredientes e divulgando os bolos. Ela está perto de realizar mais um sonho, o tratamento dentário que nunca teve oportunidade de fazer.

Ivanete Cardoso

Jornalista - MTB 57.303
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