J.R. Guedes de Oliveira

Professor Serafim de Mello

Escritor J.R. Guedes de Oliveira (Foto: Divulgação)

Lamentavelmente, sabemos, nós capivarianos, muito pouco sobre a figura do Prof. Serafim de Mello. Mesmo os três volumes da monumental obra “O Menino de Capivari”, do Prof. Vinício Stein Campos, pouco falam sobre o insigne professor de ensino de nossa cidade.

Temos conhecimento, no entanto, que foi uma personalidade das mais cultas que Capivari viu surgir e que foi merecedor, em tempos do início do século XX, de citações e de prestígio entre a intelectualidade local, mercê do seu incontestável valor cultural e de sua sobeja humildade e retidão.

O que dele sabemos, nos foi passado pelo Prof. Augusto Castanho, em artigo para jornais da cidade. Um deles, reproduzido pela Gazeta de Capivari, edição de 20 de fevereiro de 1916, jornal este fundado em 11 de março de 1900 e tendo como o seu redator e proprietário o Dr. Francisco Luiz Gonzaga.

Eis, pois, o que o Prof. Augusto Castanho nos diz sobre Serafim de Mello:

“Serafim José de Horto e Mello, era o nome do nosso professor.

Parece-me que havia nascido escravo.

E como era ainda o tempo dos hereditários e o acaso dos nascimentos dava-se ao capricho de fazer nobres e plebeus a sabor dos preconceitos em voga, aprouve a sorte que ele fosse dos últimos.
Mestiço de sangue, ele era por isso mesmo plebeu legítimo.

Dois defeitos reunidos.

Mulato, devera ser mau por força; mestre-escola devia ser toupeira também.

Pois não foi nem uma nem outra coisa por acinte.

Contrariamente, e para mais moer e confundir a cachimônia dos ledores de má sina deu-se até a fantasia de ser honesto e instruído ao mesmo tempo.

Falando corretamente cinco ou seis línguas cultas e iniciado nos mistérios da ciência, que cultivava com fervor, como que se comprazia despiedoso em alumiar com os lampejos de sua inteligência culminante a estatura apoucada dos pretensiosos que se propunham deprimi-lo no conceito obnóxio das vulgaridades persistentes.

Como ele crescia então na porfia do confronto procurado!

A unidade era minúscula e a grandeza muito vasta.

Consoante a regra, os outros blasonavam o azul suposto do sangue, mostrando orgulhosos a brancura láctea da cútis.

Ele, porém, que conhecia os agentes físicos e os elementos químicos das cambiantes colorações corpóreas, ria-se a bom rir daquele fetichismo devoto do tingimento antropológico.

Modesto, calmo e sobranceiro, contrapunha às nuances acreditadas das distinções genealógicas só a nobreza do seu talento, apenas a aristocracia de suas virtudes.
Não bastavam…

O estrabismo da visualidade profana, errando sempre o alvo e desviando o objetivo, não via nem clarões de inteligência nem pureza de costumes.

Só alvejava o trigueiro fosco do mesclado e a posição obscura do mestre.

A essa cor simbolizava baixeza de caráter e essa profissão exprimia franqueza de espírito.

Logo era vilão e analfabeto conjuntamente.

Letras, ciências…

Como poderia tê-las ele, que nem cursara academia, nem possuía um diploma?!

Eu já ouvi a um diplomata afirmar que Filinto de Almeida não sabe gramática.

É o culto do pergaminho criando o fanatismo do selo pendente em laços de fita e estojos de ouro.”

ARTIGO escrito por J. R. Guedes de Oliveira, ensaísta, biógrafo e historiador.
Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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