Arnaldo Divo Rodrigues de CamargoColunistasOpinião

Trem das onze e codependência

Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo é especialista em dependência química pela USP/SP-GREA

Comecemos falando sobre a codependência, hoje reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como uma doença, aquela de querer iludidamente controlar os outros.

Doença emocional não é “maricagem”, pieguice, sentimentalismo ou frescura. Tanto afeta a mulher quanto o homem, o adulto como a criança.

Doença psicossomática é qualquer sintoma físico ou psíquico que tenha origem na mente da pessoa.

Relacionadas com a codependência, as principais causas das doenças psicossomáticas são: ansiedade, frustração, raiva, irritação, estresse, entre outras emoções que, quando não controladas, podem causar depressão, além de afetar diversos outros sistemas orgânicos.

Entre os principais órgãos afetados estão o cardiológico, o respiratório, o gastrointestinal, o dermatológico, o endócrino e o nervoso.

Claro que o paciente vai precisar de ajuda terapêutica, psicológica e até, dependendo do caso, psiquiátrica, pois não são poucos os malefícios que podem gerar no corpo quando o emocional é afetado.

Lembremos a canção de Adoniran Barbosa, Trem das onze, que foi popularizada pelo grupo Demônios da Garoa. Sua letra faz referências ao bairro do Jaçanã, situado na zona norte da cidade de São Paulo.

A música foi premiada no carnaval de 1964 do Rio, sendo vencedora do Prêmio de Músicas Carnavalescas do IV Centenário do Rio de Janeiro, além de ter sido escolhida pela população de São Paulo em um concurso da Rede Globo, tendo sido incluída entre os 10 maiores sucessos da música popular brasileira de todos os tempos.

A história da composição é de um indivíduo, filho único, que precisa interromper um encontro amoroso para não perder o último trem, pois sua mãe não dorme enquanto ele não chega. Aí está a dependência do outro.

A codependência da mãe em relação ao filho, que não está fazendo nada de errado, pelo contrário, está seguindo o fluxo da vida: o moço namora num outro bairro e tem que voltar para o Jaçanã, porque enquanto não chega a mãe (dependente do filho) não consegue pegar no sono. Os tempos mudaram, hoje a moça, ou o moço, dorme na casa do outro, e tudo bem… Não sei!

A música diz: “Não posso ficar, nem mais um minuto com você, / Sinto muito amor, mas não pode ser. / Moro em Jaçanã. Se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas / Só amanhã de manhã. / E além disso mulher, tem outra coisa, / Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. / Sou filho único, tenho minha casa pra olhar. / Eu não posso ficar”.

Habituamo-nos a nos prender a tantas coisas, especialmente às pessoas que amamos e àquelas com quem estamos vinculados, mas também à propriedade, ao emprego, às opiniões e às aparências.

Desapegar-se materialmente e emocionalmente é um grande desafio, que aprenderemos pelo amor ou pela dor. Porque as posições transitórias do mundo muitas vezes põem a perder a espiritualidade de nossas almas.

ARTIGO escrito por Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo é especialista em dependência química pela USP/SP-GREA
Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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