J.R. Guedes de Oliveira

Uma carta de Rodrigues de Abreu

No último dia 27 de setembro, comemoramos o 123º. aniversário de nascimento de Rodrigues de Abreu – capivariano de berço e bauruense de adoção, teve, em sua curta existência (30 anos de vida) os contrastes de uma época difícil e paradoxal: pobreza e reconhecimento intelectual. Pobreza, em sentido financeiro; reconhecimento intelectual, mercê do seu talento e capacidade criativa.

rodrigues-de-abreuPara homenageá-lo condignamente, este pequeno e significativo artigo que, indubitavelmente, serve para a nossa reflexão cotidiana.

O jornal Diário da Noroeste, de Bauru, que foi um meio de comunicação que sempre esteve ao lado do poeta Rodrigues de Abreu, na década de 1920, não deixava de seguir, sistematicamente, os passos do criador da Casa Destelhada. Isto se deu pela intercessão do seu Diretor Presidente João Maringoni, um dos seus maiores admiradores.

Examinando as suas notícias sociais, notamos um verdadeiro acolhimento e a simpatia que o povo bauruense nutria pela chegada de Abreu em terras bauruenses, fato que verdadeiramente ocorreu em janeiro de 1923. A cidade tinha, então, 27 anos de fundação, possuindo, como ponto principal, a rua Araújo Leite, onde o poeta residiu, além de, uns tempos, estar no Sítio “São Gilberto”, onde completaria a 4ª. parte (Macega Florida) da sua obra Casa Destelhada.

Em princípio, dizia o jornal que com sua chegada, a cidade teve um importante desenvolvimento cultural. Segundo registra o estudioso Fábio Paride Pallotta, em sua tese sobre a Ferrovia em Bauru, “Rodrigues de Abreu foi agitador cultural, dramaturgo, poeta e orador do Centro Católico”. A antiga revista Capivari em Camisola tornou-se Bauru em Foco, com o poeta interpretando com êxito vários personagens.

Contudo, doente e sem recursos financeiros para o seu tratamento, a sociedade bauruense se uniu, em todos os seus seguimentos culturais e de benemerência para angariar fundos em prol do poeta. Entre essas entidades, uma se destacou decisivamente para amenizar o pesado fardo de uma tuberculose que se avançava de maneira avassaladora. Tratava-se da “Damas de Caridade”, tendo como a principal responsável a Prof. Ernestina Maringoni da Graça Leite, Graças a acolhedora iniciativa, propiciou ao poeta o seu internamentos, por várias oportunidades, em Campos do Jordão e São José dos Campos. Desta última, em data de 25 de dezembro de 1925, o poeta redige a sua carta tão profunda como comovente:

Excelentíssima Senhora. Dona Ernestina Maringoni. da Graça Leite. Espero que me concederá a permissão de nesta carta enviar a Vossa Senhoria os meus mais sinceros cumprimentos pelo artigo “Damas de Caridade”, publicado há pouco no “Diário da Noroeste”. Raramente, tenho procedimento idêntico. Uma grande dose de timidez, quase sempre, me tolhe a deliciosa audácia desta atitude. Muita vez, num real constrangimento, deixo de aplaudir com o meu público entusiástico atos dos meus semelhantes, que me causam felizes momentos espirituais. Para vencer este feito de quem se enrodilha, é preciso que a consciência, sobremaneira enternecida, me aponte o silencia como uma provável falta. Escrevo, pois, a Vossa Senhoria, na convicção de que no meu foro íntimo, calando-me, cometeria um crime.

Mas, não foi a admiração sincera pelo estilo e graça do artigo que me moveu. Levaram-me a isto, além da beleza real diluída por aquelas frases, umas coisas que me fizeram pensar, que boliram com a minha sensibilidade. Coisas que estão nas 16 linhas iniciais do artigo e no final referente à pobreza envergonhada.

Não estivesse tão sem coragem, e escreveria um artigo colaborando com o meu pouco na obra altamente social das senhoras de Bauru. Está claro que, de entrada, faria meus os conceitos sobre a mulher emitidos por Vossa Senhoria.

Penso que só as mulheres, devido a uma grande reserva de sutil ternura, sabem fazer a caridade inteligentemente. Inteligentemente, porque a fazem com o coração. Não é paradoxo. A caridade feita apenas com a razão perde toda a sua beleza e utilidade. A filantropia, muita vez, é árida. O coração não lhe sopra a ternura. E há casas hospitalares, levantadas com as linhas geométricas da inteligência, que espantam as necessidades pela secura de carinhos. As mulheres, fazendo de todo movimento humano um ato religioso, divinizaram o gesto eu ampara. Só elas sabem deixar nos lares aflitos, à cabeceira de um doente cheio do pudor da miséria, a certeza de que não se lhe fez esmola. Deu-se-lhe, por equidade, o que lhe era devido no banquete da vida. E a sutileza que as mulheres desenvolvem para que não abata moralmente o necessitado, só ela tem o valor da melhor esmola…

Por aí Vossa Senhoria vê o quanto me enternecem o tópico final do artigo. O saber que as “Damas de Caridade” põem especial carinho no socorro à pobreza envergonhada. O meu temperamento de envergonhado e de tímido sabe avaliar muito em este capítulo.

Em verdade, a pobreza mendicante é dolorosa. Os ranchos errantes dos hansenianos, que se eternizam devido à imprevidência dos homens, são dos espetáculos mais rascantes que há. Há os mendigos lamurientos, desfiando a litania enfadonha das suas necessidades. Há os que exibem as chagas, ferindo-nos a vista para melhor ferirem o coração. Há os cegos que impressionam tanto. E os tísicos, pobrezinhos, que pedem num acesso de tosse. Como tenho pena dos meus irmãos tísicos!

Mas, não é só a pobreza perto, e dos mendigos das ruas, que merece o nosso auxílio. Há uma outra longe, isolada no seu pudor e no seu orgulho, feita também de cegos, de tísicos, de todos os doentes, de todos os infelizes. Outra pobreza que se não exibe, ou por que já brilhou entre os homens, ou porque tem nível intelectual elevado, ou porque não quer envergonhar aos seus que são considerados… Como fique contente em saber que essa pobreza vai ser, na minha querida cidade de Bauru, carinhosamente socorrida!

A meu ver, o mais desventurado de todos os mendigos, o que mais sofreu, foi aquele orgulhoso fidalgo, flor da nobreza do seu país, o maior da sua raça em todos os tempos – Luiz Vaz de Camões. Tinha saber, tinha sangue nobre, tinha orgulho, tinha certeza do seu valor, e morreu comendo o pão amargo da esmola, amargo porque não foi oferecido por doces mãos femininas.

Deus guarde Vossa Senhoria e os seus,

Rodrigues de Abreu.

Tenhamos, sempre, a iniciativa de cultuar a memória do poeta, até como paga pelo muito que ele fez… e fê-lo com a dignidade, humildade e desprendimento de um verdadeiro poeta-homem, homem-poeta.

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Escritor J.R. Guedes de Oliveira (Foto: Divulgação)

 

ARTIGO escrito por J. R. Guedes de Oliveira, ensaísta, biógrafo e historiador. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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