Opinião

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Desemprego é uma palavra bastante comum no vocabulário dos brasileiros, ainda mais agora, após essa confusão toda de quarentena, pandemia, etc. E foi com uma experiência própria que resolvi, esta semana, repensar o termo de “emprego dos sonhos”, ou para os mais modernos, “sonho americano”.

Sendo jovem, nos dias atuais o mercado de trabalho é bastante amplo, principalmente para quem cursa uma faculdade ou procura investir em uma carreira promissora. Ouço minha querida avó contando sobre quando era jovem, que queria trabalhar, mas por costumes da época, foi obrigada a abandonar esse sonho para cuidar da casa e dos filhos, dever obrigatório da mulher de seu tempo. Com lágrimas nos olhos, a ouço contar de sua professora a elogiando, dizendo que teria um bom futuro nos estudos se continuasse, porém, como muitos já conhecem o costume da época, não foi esse o seu destino. Apesar de tudo, sempre foi uma mulher batalhadora e forte e, hoje, aos 84 anos, posso dizer que tenho orgulho de chamá-la de minha avó. Leitora de todos os meus textos, sempre procurou dar o de melhor aos filhos e netos, e é com seu exemplo de vida, que percebi que até então eu estava fazendo tudo errado.

O porquê do errado talvez seja o mesmo de muitos, mas foquemos em minha experiência, só para termos uma base. Desde quando comecei a trabalhar, sempre tive experiências curtas, porém que me ajudaram e muito no dinheirinho do fim do mês. Em cada serviço, aprendi uma coisa nova, que pude usar nos demais que vieram.

Lembro como se fosse ontem do dia em que minha mãe imprimiu alguns currículos e, determinada, me levou a cidade para entregá-los. Era um sábado e posso dizer que nunca mais me esquecerei daquele dia. A primeira loja que entramos, entreguei o papel com minhas cruas experiências e, acreditem: “Pode vir na segunda-feira?”.

Confesso que saí dali boquiaberta, pois era a primeira vez que entregava um currículo e já era chamada para começar em seguida. Fiquei muito feliz a princípio, mas quem nunca teve aquele friozinho na barriga, não é? Não só o receio do começar algo novo, mas também porque se tratavam de estrangeiros (fica a dica, eles tem olhinhos puxados), com quem, até então, eu nunca havia trabalhado. Pois bem. A segunda-feira chegou e o meu pânico só aumentou. Era a abertura de uma nova loja, por isso eu e os demais contratados iríamos ajudar na organização do lugar. Reconheci uma antiga colega de escola, que foi um dos motivos para eu não virar as costas e sair correndo, além de mais algumas pessoas que se tornariam aquelas com quem eu dividiria a luta diária para conquistar o ganha-pão (dramática, não?). Agora, a melhor parte: na primeira semana, fui trabalhar todos os dias aos prantos. Hoje não sei como identificar esse meu desespero momentâneo, só sei que foi algo que não me arrependo de ter sentido, pois foi o que me preparou para o mercado de trabalho. Algo que me ensinou que não é porque está difícil, que devemos jogar tudo para o alto e ir embora.

Mas continuando. Assim como muitos, já fazia tempo que eu estava em busca de um serviço, então aquele não só era um milagre, como também uma porta que se abria para mim, para uma experiência inesquecível. Minha chefe, por quem hoje tenho um carinho especial, foi aquela que gritou, implicou e pegou no meu pé aquela semana inteira. Até hoje me lembro de sua testa franzida quando eu, atrapalhada por natureza, fazia algo que não era de seu agrado e ela, com seu jeitinho único, vinha me corrigir. Eu e minha família não cansamos de pedir aos Céus, para que algo fosse feito. Pois para mim, que precisava e muito daquele emprego, não seria nada fácil enfrentar tudo aquilo. E foi aí que tudo mudou. A semana findou, a loja ficou pronta. Chegou a inauguração. A partir daquele dia cessaram os gritos, as advertências e a implicância. Ela ainda tinha seu jeitinho irritado, mas que se tornou algo especial, o qual nunca vou esquecer. Era “Sara!” pra cá, “Sara!” pra lá, mas dessa vez para ir com ela a mercearia, para ajudá-la a escolher roupas, para acompanhá-la aqui e ali. Muitos que me conhecem podem até criticar, mas acredite, leitor, o que escrevo aqui, é porque realmente sei o que é precisar de trabalho e não ter. Após quase um ano trabalhando lá, pedi a conta, por motivos que hoje vejo terem sido nada mais que uma bobeira. Recebi meu dinheiro, acertei tudo. Mas foi aí que o desemprego voltou, a pandemia chegou e tudo aquilo que eu achava ser um bicho de sete cabeças, comecei a perceber que não era nada mais que bobagem. Por isso, deixo aqui o meu conselho para você que tem um emprego e está nervoso, ou então cansado de todos os dias fazer a mesma coisa: dê valor ao que você tem. Está difícil? Sim, mas não só para você. Pense sempre que, enquanto você está trabalhando, ganhando que seja um salário pequeno, muitos estão vendendo o almoço para poder jantar. Foi essa a porta preparada para você, então valorize-a. “Ah, mas eu tenho estudo, não posso ficar sempre fazendo isso.” Ótimo! Continue estudando. No tempo certo tudo vai se encaixar e aquele seu emprego dos sonhos vai aparecer, até com os cânticos de aleluia no fundo. Mas por enquanto, tenha paciência com aquele patrão, aquele funcionário, ou até mesmo aquela função que tanto te faz quebrar a cabeça. Eu, que assumo honestamente ter me arrependido sair daquele emprego, hoje ainda sou chamada para ajudar aquela que, sem saber, se tornou uma amiga, apesar de tudo. Então, queridos, lembrem-se: quanto maior a luta, maior será a vitória.

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Sara Figueiredo (Foto: Arquivo pessoal)

Sara Figueiredo, estudante de Letras Português/Inglês. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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