Rubinho de Souza

“Zinho” – um personagem da minha infância

Existem certas pessoas, que passam por nossas vidas, e queiramos ou não, acabam, ainda que indelevelmente por marcar nosso passado, carregando-o de lembranças, que de quando em quando, através de uns relampejos de memória, nos fazem lembrar parte daquilo que vivemos, ouvimos ou sentimos no decorrer de nossa fugaz existência.

Dias atrás, eu tive esses relampejos de memória e comecei a lembrar de uma declamação que um senhor chamado Luiz, que todos que o conheciam, o tratavam por “Zinho” declamava sempre que ia cortar o cabelo na barbearia do meu pai. No início algumas frases soltas, depois uma estrofe, e por fim passados quase meio século, lembrei-me de praticamente a declamação por completo.

Foto enviada pelo colunista

Zinho, que quando eu conheci já era idoso e ainda solteiro, morava só, numa chácara na velha estrada de terra que ia do bairro Padovani para a Vila Fátima, estrada que hoje tem o nome de Avenida Brigadeiro Faria Lima.
Zinho mesmo aposentado, vendia aqui na região cachaça, que ele trazia da cidade de Rio das Pedras, da fábrica dos irmãos Limongi. Carregava o saco com os litros de pinga nos lombos como se fossem leves para ele. Usava um chapéu de palha, e quase sempre andava a pé e para ir buscar seu artigo de venda, usava o trem da Sorocabana, para se locomover. Na foto, a antiga estação ferroviária da cidade de Rio das Pedras.

Muito inteligente, dizia que sendo caboclo da roça, se tivesse quando era jovem a oportunidade de poder frequentar uma universidade, seria o segundo Rui Barbosa, tal era sua perspicácia e facilidade de aprendizado.

Não admitia que ninguém o chamasse de Senhor! “Senhor só existe um e está no céu!” Dizia ele…

Segundo consta, nunca namorou, optou por viver uma vida como um ermitão, e morreu solteiro na cidade de Sorocaba, onde passou a residir na casa de seu irmão Benedito, depois que perdeu as forças pelo peso da idade.

Como escrevi acima, Zinho declamava uma espécie de poema que era mais ou menos assim, se a memória não me trai…

“Fui correr um casamento bem contra meu coração mulher quando quer casar, melhor largar mão. Não que não seja um bonito rapagão, o defeito que ele tem é ser muito mandrião (que é vagabundo), faz três meses que se casou e se pôs muito poupão. Está cumprindo a dieta da sua namoração. Acorda ao meio dia amarelo que nem mamão, balançando em boa rede, até parece um cidadão, açúcar nenhum terrão, pó de café também não, aranha fazendo teia na boca do caldeirão. Mulher quer reclamar certeza não tem razão, ela foi bem avisada qual era sua geração. De repente veio de lá de dentro, um velhinho pisando duro no chão. Marvado me deu tanto pescoção. Preciso me retirar, negócio não teve bão. Agora! namorar filha dos outros, não é minha inclinação”.

Grato por nos prestigiar com sua leitura, e um grande e fraterno abraço.logo do fundo do baú raffard

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