Rubinho de Souza

“Cento anni di vita con salute, dopo un incidente”

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Os mais antigos da cidade Coração, hão de se recordar de Américo Palamede Chiarini (na foto com seu neto Claudemir), um senhor italiano, que foi até os anos 60, barbeiro em “Vila Rafard” num tempo que haviam muitos barbeiros na rua Maurice Allain, tais como Leônidas Ferreira, Danilo Abel, Bernardino Tirelli, Pedro Silveira Rocha, e Carmelindo Luís de Souza, meu pai. O Sr. Bepe Relli, também era do mesmo ofício, mas seu salão era na sua casa, na rua da Estação Sorocabana.

Nesse tempo em que minha família morava no bairro dos Padovani, Seo Américo disse ao meu pai que queria vender sua barbearia, que ficava na sala de sua casa, porque sua idade era avançada, e suas vistas estavam cansadas. Meu pai comprou dele a cadeira e todas as ferramentas, e ele acabou se aposentando do ofício.

E aproveitando a negociação com Américo, fez-lhe uma proposta, e acabou alugando o barracão que ficava ao lado da casa de Américo, que pertencia ao seu filho “Vaíto” e nesse local, por muitos anos funcionou a Barbearia do Carmo e dos filhos Elias e Gérson.

Alguns anos depois, quando meu irmão Elias abriu seu salão em Sorocaba, meu pai e Gérson passaram a atender na frente, e eu num espaço aos fundos, que era separado por um biombo, e aos sábados era tão grande o movimento, que a gente ficava até altas horas da noite, para dar conta do grande número de clientes que vinham das fazendas, dos sítios e até de Capivari.

No início da semana era mais tranquilo, e muitos aposentados, vinham na barbearia, alguns até mesmo “passar as horas”, “bater um papo” – diziam eles que vinham “sapear”. E quando chegava algum cliente, e parava na porta, eles rindo diziam: – Se for cortar, pode entrar que aqui não tem ninguém, só tem sapo. Às vezes, a pessoa um tanto constrangida dizia: – Hoje não vou cortar, só vim dar uma volta. Aí o pessoal caia na gargalhada e falava: Ih! Outro sapo!

E assim se foram as horas, os dias, os anos…E hoje, sou obrigado a reconhecer que foram os melhores dias da minha vida, tempo que as brincadeiras e as conversas eram tão agradáveis, que no dia seguinte ao abrir a Barbearia, iam chegando Geraldo Sampaio com seu violino tocando “La Cumparsita” e Néi Gropo no violão tornando o nosso dia a dia mais alegre.

Como eu disse o Seo Américo e a esposa, moravam na casa ao lado, e quando ele precisava cortar a barba e o cabelo, Dona Júlia me chamava pelos fundos, por uma porta que acessava a casa deles, por onde nos disponibilizavam um banheiro para uso exclusivo da Barbearia.

E lá ia eu cortar o cabelo e a barba de Américo, e o fazia com tanto carinho que nem cobrava deles pela nossa amizade e por recomendação do meu pai. E ainda que não cobrasse, nunca saí de mãos abanando, visto que sempre fui colecionador de selos e eles guardavam todos os envelopes das cartas que recebiam de parentes deles da Itália para eu pegar os selos, e ainda Dona Júlia me dava toda vez pote de doce em caldas de figo, ou de laranja, ou de abóbora, feito por ela no fogão de lenha, que só de lembrar, dá água na boca.

Américo falava bem italiano, e durante o serviço, falava muitas frases que guardei na memória, quando alguém espirava, ele dizia no bom e velho sotaque italiano: – Salute! Cento anni di vitta dopo um incidente! E eu dizia: – Grazie! Mas depois perguntava: – O que significa isso que o senhor disse Américo? E ele rindo, me dizia: Non chapisco? E eu respondia: – Non…

Ele então dizia: – Eu desejei a você cem anos de vida com saúde, e depois um raio na cabeça. E acrescentava: – Quer coisa melhor que isso?

Outra frase sua que me recordo, era quando dizia ao levantar da cadeira: – È brutta la vecchiaia! E quando eu perguntava o significado, me dizia: – É triste a velhice! Um dia você vai saber…

Assim como até hoje, guardo com zelo os selos que ganhei, todas essas lembranças também estão bem guardado num cantinho de minhas memórias, que doravante compartilho com você caro amigo leitor. Grato pela atenção e por prestigiar nossas publicações. Abraço.logo do fundo do baú raffard

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