Arnaldo Divo Rodrigues de CamargoColunistas

Alimentar-se apenas pelo nariz

Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo é especialista em dependência química pela USP/SP-GREA

Recebi um folheto de campanha de prevenção ao câncer de boca, com informações interessantes.

Lendo qual a causa, encontrei que os principais fatores que podem levar ao aparecimento do câncer de boca são: o vício de fumar e o de consumir bebidas alcoólicas em excesso. E quando eles estão associados, o risco de desenvolver a doença aumenta mais de 100 vezes.

Fazendo especialização em dependência química no Grea (programa do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas), acompanhamos o caso de um senhor já com mais de 50 anos, com o vício da bebida e do fumo por longos anos. Antes residia em São Paulo e era casado; vindo prestar serviço no interior, conheceu outra mulher, mãe solteira, e constituiu uma nova família.

Nesta ocasião, já estava enfraquecido e não podia mais deglutir ou engolir alimentos ou líquido; era necessário se alimentar-se por um tubo pelo nariz.

Também nessa circunstância não podia mais beber, pois não andava sozinho, mas ainda queria fumar. Que tristeza…

Realmente, receber um diagnóstico de câncer pode ser bem difícil, pois, além da doença em si, haverá mudanças em todos os aspectos da sua vida. Mas tem uma coisa boa: hoje, muitos dos cânceres podem ser curados, especialmente se diagnosticados em estágio inicial.

Diante disso, não é tempo de uma maior divulgação dos malefícios do cigarro e do álcool, e de exigir maiores restrições ao seu uso?

Em pesquisa feita pelo Centro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da UNIFESP, constatou-se que 33% dos alunos de escolas particulares de São Paulo já se embriagaram. No caso do fumo, o início do consumo acontece em média entre os 13 e 14 anos. O uso de outras drogas declina com a idade, o mesmo não acontecendo com o tabaco.

Como o efeito do cigarro só aparece a longo prazo, para 83% dos que fumam, câncer é lenda; a maioria dos fumantes ignora o tumor que mais mata no país e não se imagina com a doença.

Já com o aparecimento da doença, as pesquisas apontam que, antes de saber da doença, 79% dos pacientes afirmavam ter religião, parcela que pula para 88% após o diagnóstico. Também foi constatado um aumento na frequência a cultos religiosos.

Antes da morte do paciente acima mencionado, ele teve tempo de ir ao Cartório para assinar um documento de união estável que deu estabilidade financeira para a nova esposa e os três filhos.

ARTIGO escrito por Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo é especialista em dependência química pela USP/SP-GREA
Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

Etiquetas
Botão Voltar ao topo
Fechar