J.R. Guedes de Oliveira

Álvares de Azevedo

Escritor J.R. Guedes de Oliveira (Foto: Divulgação)

Garimpando os jornais antigos, da Gazeta de Capivari, do início do século XX, deparo-me com um belo artigo do escritor e então Promotor Público em Capivari, Dr. Tancredo do Amaral. A edição do referido semanário é de 21 de maio de 1916.

Precisamente, se trata de uma descrição da figura de Manoel Antônio Álvares de Azevedo que pouco viveu, mas que deixou uma enorme literatura, revelando uma fantástica cultura para a então sua idade: 20 anos vividos.

Eis, pois, o que nos diz Tancredo do Amaral:

“Álvares de Azevedo é o mais genuíno representante dos poetas paulistas, e um poeta acadêmico por excelência, um filho da Academia de São Paulo. Não só o ciclo da as vida literária começou ali, e ali terminou com sua morte em 1852, quando concluíra o seu 4º ano, como também o poeta viu a luz do dia na sala em que hoje funciona a biblioteca da Academia, que então ocupava apenas dependências do prédio.

Em 12 de setembro de 1831 os estudantes que por ali passavam em demanda das aulas, exclamavam rindo ao ouvir ou vagidos do recém-nascido: – é mais um estudante!

E assim foi.

Álvares de Azevedo, em 1845, com quinze anos mais ou menos, matriculava-se na Academia de São Paulo.

O seu curso foi brilhante, e foi nele que desabrochou para as letras o seu peregrino talento, sendo seus autores prediletos, enre outros, Byron, A. de Musset e Millevoye.

Dedicara-se, além de tudo, ao estudo de línguas, merecendo-lhe especial predileção o estudo do direito romano, sendo admirado por professores e condiscípulos pela sua aplicação e pela condição do seu espírito.
Álvares de Azevedo era meigo, afável e comunicativo.

Depois tornou-se, com a enfermidade que lhe minava o organismo, fraco, tristonho e reconcentrado.
Adivinhava que morreria moço, revelando desde então em seus escritos esse traço de pessimismo que o tornou merencório, desejoso do silêncio e da solidão.

Dir-se-ia que o contaminara o ceticismo de Byron pelas amarguras que lhe dera a vida e pelas injustiças que do mundo recebera.

Uma vez sua mão foi encontrá-lo tristemente curvado à secretaria, a mão esquerda sobe a fronte, escrevendo.
No papel estavam lançados estes versos:

“Se eu morresse amanhã, viria ao menos fechar meus olhos minha triste irmã. Minha mãe de saudades morreria, se eu morresse amanhã!”

Dele escreveu um eminente literato:

“A força, a profundeza dos seus estudos, ficou exarada em razões por ele feitas, em pareceres por ele dados, não a bisonho, mas a advogados peritos e que o ouviam com todo o apreço.

A extensão de seus conhecimentos literários e a grandeza de seus pensamentos e de sua imaginação ficou traçada em discursos que deixou, e poesias, que compôs. Os seus escritos mostram a primeira vista um fundo conhecimento da língua portuguesa; há neles certo jeito de frase que lhe era peculiar.

Na prosa há, às mais ou menos afetação de quinhentismo; na poesia há, ora aquela doçura de Millevoye, acompanhada de certa volúpia, ora aquele pensar chão e austero que encerra o epigrama e a dúvida, mais vezes aquele sentimento melancólico que se acha em André Chènier.

Há, entretanto, um devaneio quase contínuo, certas imagens, certas expressões que sempre lhe transluzem nos escritos e, sobretudo, uma ideia de morte, de morte de mancebo, de morte sem atingir a meta do futuro!…

E não se enganava.

Em março de 1952, cruel moléstia o acometeu, zombando da ciência médica e de todos os cuidados e desvelos da família e dos amigos.

Faleceu no dia 25 de abril de 1852, depois de perto de 50 dias de sofrimentos, deixando três grossos volumes de poesia e prosa.

Um eminente escritor disse, a ele se referindo: “Foi incontestavelmente um gênio. Não conheço, em literatura alguma, estro poético mais perfeito, talento e erudição mais profundos em tão curta idade. Morrendo como pouco mais de vinte anos, deixou trabalhos que grandes escritores desejariam ter produzidos.

Pouco antes de expirar, fez retirar sua extremosa mãe dos seus aposentos, e, tomando as mãos de seu pai que levou aos lábios, reclinou-se ao peito do irmão e, levantando os olhos tristes e úmidos para o seu progenitor, balbuciou esta frase: “Que fatalidade,,meu pai!…”

Fatalidade sim, fatalidade que alanceou a alma amorosa dos pais; fatalidade que cortou as asas de águia que alçara o voo, ferindo a vida de uma grande esperança da pátria, fulminando o poeta, quando o seu espírito e o seu coração começavam de se abrir para os sonhos e para a glória!…”

Só para conhecimento, lembro, aqui, que o poeta Rodrigues de Abreu também pouco viveu: apenas 30 anos, nos legando uma literatura das mais belas e fecundas. Há uma conotação interessante entre Álvares de Azevedo e o poeta capivariano, já que este foi um dos grandes amigos do Dr. Francisco Luiz Gonzaga, de Itaborai, RJ, do referido tronco genealógico, a quem a “terra dos poetas” muito deve. São apenas anotações de curiosidade.

ARTIGO escrito por J. R. Guedes de Oliveira, ensaísta, biógrafo e historiador.
Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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