Leondenis Vendramim

A imprensa e nossa língua 3

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Leondenis Vendramim é professor de Filosofia, Ética e História (Foto: Arquivo pessoal)

Há alguns anos pergunta-se sobre a sobrevivência do jornal impresso. A tecnologia trouxe forte concorrência. A notícia corre veloz o mundo, acessível, gratuita, fácil; o impresso gasta com o papel, tinta, transporte, entrega às bancas e aos domicílios; é tardia, e os regionais periódicos, são semanais.

A subsistência destes depende de assinantes, dos anúncios comerciais e do poder público. A luta para conseguir manter-se informativa veraz, reprodutora dos fatos, sem pré-julgamentos, livre do jugo político, religioso e interesses financeiros é renhida, mormente para periódicos regionais.

Mas o jornalista tem de manter a imparcialidade lembrando que sua função é a coleta e interpretação de fatos que tenham importância ao público alvo com a finalidade de informar a realidade exatamente como ela se deu. Isso exige paixão pelo jornalismo, isenção de pré-conceitos, firmeza para ater-se aos fatos, independente de interesses e opiniões externas, mesmo que, de sustentadores financeiros.

Em 1990, José Carlos Darros e João Eduardo Proença decidiram editar O Jornal de Capivari, 6 meses depois, para orgulho dos rafardenses, em 15 de maio de 1991, passaram a editar O Semanário, rememorando o Progresso do químico e jornalista José Miguel Bósio.

Conforme José Carlos, os jornais se desfaziam de suas máquinas para investir em offsets e “conseguimos comprar três máquinas da marca Linotipo e uma impressora mono manual/folha. O processo de produção era artesanal. Para concluir a edição da semana, trabalhávamos 12 horas por dia durante toda a semana. Isso quando não apresentava nenhum problema.

Muitas vezes virávamos noite e dia sem dormir para finalizar a edição. Tínhamos o setor de reportagens, que entregava a matéria escrita à mão ou em máquina de escrever. A digitação na Linotipo produzia linha em placas de chumbo que, após corrigidas linha a linha, passava para o processo de diagramação das páginas.

A criatividade, a concentração e o cálculo matemático dos espaços eram todos preenchidos ou pelos textos, ou pelos clichês em madeira com os títulos em peças de tipo de chumbo. Na impressora, o operador soltava folha a folha para que encaixasse na pinça para a impressão margeada.

Após dobradas e intercaladas as páginas na ordem, o jornal era distribuído casa por casa pelos entregadores que recebiam a ordem de avisar os assinantes quando o jornal era lançado nas garagens ou colocado nas caixas de correio. A cada edição era uma vitória comemorada por toda a equipe”.

Com a chegada dos computadores (1995), houve mais rapidez na evolução, passando a ser uma impressão offset (22 anos após a Folha e Estadão), de melhor qualidade e rapidez. A notícia mais curiosa, rentável e que se internacionalizou, segundo o então proprietário, foi a respeito do místico “Chupa Cabra”, que matava animais à noite.

Em 2007, nosso amigo José Carlos, que editou meu livro Do Imaginário à Santa Inquisição, dedicou-se a outros afazeres deixando ao jornalista José Maria Campos, e ao seu sobrinho, também jornalista, Túlio Ricardo Darros dos Santos, a direção, e em 2010 proprietário. Nestes 29 anos são 1457 edições, mais de 2 milhões de exemplares e 20 mil páginas diagramadas e sob a batuta do Túlio e da sua esposa Deise Campanholi, ganhou novo impulso; foram lançados os cadernos específicos de Rafard, Mombuca e Capivari.

O Semanário foi um dos pioneiros na região a levar informação também online conseguindo o extraordinário número de 2 mil acessos diários (60 mil mensais)!

Enorme é a responsabilidade, pois além de manter os leitores informados e atualizados pelo site, é necessário suster a edição impressa, enfrentando a concorrência jornalística da Folha e Estadão, dos radiofônicos e dos televisivos.

Como diz Túlio, os comerciantes ainda não perceberam o potencial dessa ferramenta e a pandemia atual falece a economia, o que reflete na sustentabilidade do Jornal. Os jovens não leem jornais, nem compram livros, usam a leitura online, e os leitores idosos escasseiam-se, quer pela aposentadoria que se esvai, ou pelo serviço obituário.

Com as novas tecnologias, ainda por vir, o jornal impresso está fadado a ser substituído pelo digital. Enquanto O Semanário tiver de suster ambos, diz Túlio, “poucos imaginam o tamanho da dedicação para manter tudo isso em pé”. Porém estribado no apoio da competente esposa Deise e com as bênçãos de Deus serão vitoriosos. Parabéns!

ARTIGO escrito por Leondenis Vendramim, professor de Filosofia, Ética e História. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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