Leondenis Vendramim

A imprensa e nossa língua

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Leondenis Vendramim é professor de Filosofia, Ética e História (Foto: Arquivo pessoal)

Homenageando o nosso jornal rafardense, “O Semanário”, pelos 29 anos proficientes informando e formando leitores, faço uma abrupta mudança de pensamento, voltaremos em breve a ele.

Abordaremos sucintamente um histórico sobre a imprensa e nossa língua. Sabemos que o Brasil foi colonizado pelos portugueses, povo fanaticamente católico, que se achava o povo de Deus para evangelizar o mundo com método impositivo.

Essa religião determinativa foi exacerbada pelo Concílio de Trento (1545-1563). Entre outras resoluções o Concílio criou a Congregação do Índex com a finalidade de examinar todas as matérias impressas para defender o catolicismo ortodoxo das publicações com tendências contrárias.

O Índex, ou relação de livros proibidos pela Igreja, foi divulgado pela bula “Benedectus Deus” (26/01/1564) pelo Papa Pio 4º. Na lista constam obras teológicas e literárias como de Camões, Erasmo de Roterdã, Bocáccio, Decameron, Gil Vicente, Padre Vieira, Maquiavel, Pe. Pedro Abelardo, Rembrandt, Van Dick, Velasques, Shakespeare, Molieère e muitos outros.

O livro e a técnica de fazê-lo assumiram aspecto herético que atrai maldição e condenação. O prelo passava por três censuras: do episcopado, do representante real (desembargo do Paço) e da Inquisição, devia receber a aprovação estatal e do Vaticano, o “Nada obsta”.

Somente os livros que não laudavam os “hereges”, e entre as traduções da Bíblia a Vulgata Latina, tinham permissão para serem impressas, vendidas e lidas sob interpretação dos padres, quaisquer outras traduções eram proibidas.

Mais de 30 mil intelectuais portugueses foram vitimados pela congregação do Índex, a imprensa foi limitada aos padres, os livreiros eram objetos da inquisição, as obras eram consideradas instrumentos hereges. No Brasil eram proibidas sua impressão, venda e importação.

Houve casos, antes de 1808, de alguns estrangeiros trazerem, entre seus pertences, livros, e ao desembarcarem tiveram de traduzir ou ler aos ouvidos dos inquisidores, para receber permissão ou não.

Muitos censores eram iletrados para tal análise e havia muita demora para a aprovação. Milhões de volumes e Bíblias foram queimados; Padre Agostinho Gomes, Cipriano Barata, Marquês de Maricá foram acusados de possuírem livros contrários à Igreja e a favor da independência e da República, defendidos pelos maçons iluministas.

Em 1706 apareceram imprensas clandestinas, mas D. João V decretou (1747) o fechamento radical de gráficas e impressoras. Tal era o estigma, que no séc. 18, quando os jesuítas foram expulsos do Brasil, os livros leiloados dos mosteiros só foram comprados, por insistência, para servir em armazéns como papel de embalagem.

O primeiro jornal de placas colocadas ao público, pelo que sabemos, foi o Acta Diurna em 69, por ordem de Júlio Cesar, para divulgar os atos políticos e sociais do império romano. No séc. 8 surgiu na China o jornal manuscrito.

Em 1447, Johannes Gutemberb inventou a impressora e com a vinda do papel os jornais modernos tornaram-se os principais divulgadores de notícias. Vlad Tsepes Drakul, Conde de Drácula lançou o jornal manuscrito sobre assassinatos e tragédias. Veneza publicou o “Gazetta” (1556), no séc. 17 apareceram vários jornais europeus, mas notícia e divulgação de opiniões científicas, religiosas e políticas diferentes da Igreja, que controlava os governos, eram impedidas.

Em 1844, Samuel Morse inventou o telégrafo (escrita à distância) e o código para a compreensão dos sinais. Este engenho trouxe velocidade às notícias, diminuindo de quinzena para minutos; entretanto, o telefone (telégrafo falante), invenção de Antonio Meucci (1870) e aperfeiçoado (1876) por Alexander Grahan Bell, Thomas Watson e Elisha Gray deu impulso ao jornalismo que também contou com o desenvolvimento das ferrovias para a sua circulação de modo que na última década do século o jornal tornou-se a principal fonte de informações, surgindo influentes grupos editoriais.

Alicerçada nesses inventos cresceu a venda de jornais, livros e Bíblias surgindo editoras, sociedades bíblicas; escolas e faculdades podiam ter bibliotecas, embora, os livros fossem ainda muito caros devido à vinheta (arte: ornamento, ilustração, capa luxuosa com veludo e fios dourados, letras góticas iniciais…). Atualmente os livros estão mais popularizados, acessíveis pela internet. Contudo, as dificuldades persistem.

ARTIGO escrito por Leondenis Vendramim, professor de Filosofia, Ética e História. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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