Leondenis Vendramim

A imprensa e nossa língua 6

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Leondenis Vendramim é professor de Filosofia, Ética e História (Foto: Arquivo pessoal)

No princípio havia um idioma único, e uma só maneira de falar (Gn 11:1) todos se entendiam e se comunicavam por meio dessa língua. O povo ante e pós-diluviano tornou-se muito corrupto (Gn 6:3-5).

Eles cultuavam o deus Ilu, culto ressurgido na Índia, e posteriormente, na Mesopotâmia do tempo da Babilônia imperial, influenciando inclusive na cultura romana. Em latim “Illudo” gerou nossas palavras iludo, iludir, ilusão, que é brincar, zombar, insultar, enganar.

Esse povo tentou construir um prédio tão alto onde todos pudessem morar, contrariando os planos divinos de se espraiarem para cultivar a terra e dela usufruírem. Disse o Senhor: “Isto é apenas o começo, agora não haverá restrição para tudo o que intentam fazer.

Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro”. Causando uma multiplicidade de línguas dentre um mesmo povo, a isto se chamou babel (Gn 11:3-9), ou seja, confusão, orgia. Atualmente há 6.912 idiomas pelo mundo (ver dicionário Ethnologue).

Os portugueses do século 14 acreditavam que seu país era divino, eles eram missionários para impor sua religião e sua língua celestiais, os demais tinham a obrigação, por instituição divina, de aceitar o catolicismo. Segundo Frei Bernardo de Brito (1519-1617), Deus desceu do céu, conversou pessoalmente com D. Afonso Henriques, orientou-o a fundar o reino de Portugal e o fez rei.

O Frei até elaborou a Acta das Cortes de Lamego, uma certidão comprovando o milagre; este documento tornou-se a Carta Magna de Portugal. Depois de dois séculos (1820) o juiz de Lisboa, fundada pelo deus Ulisses, gritou numa festa: Vivam as Cortes de Lamego”, tal a credulidade (Do Imaginário à Sta. Inquisição, 88-89).

A língua portuguesa, na realidade, foi formada pelos idiomas latino, bárbaro, grego e a posteriori, muito influenciada pelo árabe, e outros.

A língua portuguesa brasileira se fez num cadinho onde havia a tupi-guarani e aí misturada a europeia dos colonos com todas as suas nuanças, não dos cultores da língua como Luiz de Camões, Gil Vicente, mas dos aventureiros, condenados e iletrados, pois aqui era a masmorra deles.

Nesse cadinho foram acrescentadas as africanas e inumeráveis outras trazidas pelos estrangeiros, que aqui vieram e se enraizaram. O idioma autóctone era falado no dia a dia e predominava sobre a portuguesa – 75% dos colonos falavam a indígena, tanto nas Províncias de S. Paulo como no Rio Grande do Sul, mas nas escolas, segundo o Pe. Antônio Vieira, os jesuítas ensinavam o português.

Como Portugal se apropriou destas terras, fez dela uma colônia subjugada, proibiu a entrada de livros, revistas e jornais, bem como a instalação de gráficas, editoras e vendas de livros, restringindo a cultura, decretou também, a proibição do uso da língua indígena impondo a portuguesa.

Mesmo assim, a língua Tupi, bem estruturada, exerceu marcante influência em nosso falar. Os tupis não tinham o “lh”, por isso, perduram termos como mió, mio, muié, oreia, cuié, etc. Há nomes indígenas de animais: arara, ararinha, periquito, jacu, tatu, anta, sucuri, caninana, jararacuçu, jaguatirica; topônimos: Ibirapuera, Butantam, Guaratinguetá, Itu, Itapeva, Itaici, Indaiatuba, Tietê; nomes de frutas: abacaxi, umbu, caju, buriti, ingá, pitanga; antropônimos: Caiubi, Guaraciaba, Iraci, Jaci, Jurema, Iracema; de rios: Mogi Mirim, Jequitinhonha, Pindamonhangaba; de peixes: piranha, lambari, pacu; de árvore: Jatobá, jacarandá, etc.

Os africanos contribuíram com nomes de danças: samba, maxixe, batuque; de comidas, nomes geográficos, de religião, com elementos da língua dos bantos e dos nagôs ou iorubanos: nhô, nhonhô sinhá, sinhô etc.

O idioma brasileiro difere da portuguesa, porém não o bastante para não nos compreendermos, o que impede de termos um idioma nacional como alguns estudiosos pretendem, muito menos formatar uma língua gaudéria, nordestina, ou mineira.

Nossa língua tem recebido um caudal de estrangeirismos como yakissoba, nobreak, mouse, pen drive, game; máster chefe e uma infindável lista.

Os dicionaristas dizem que temos mais de 100 mil palavras das quais mais de 17 mil são de origem grega e mais de 80 mil latinas, mas devo esclarecer que grande parte das latinas e de outros idiomas são oriundas da grega como boçal, mês, musa, museu…

A língua é uma das riquezas com as quais Deus nos distingue dos animais irracionais.

ARTIGO escrito por Leondenis Vendramim, professor de Filosofia, Ética e História. Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal. São de inteira responsabilidade de seus autores.

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